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CAPÍTULO
IV: O Conhecimento Transcendental
Perola
23. O MISTÉRIO DA CIÊNCIA DO GITA (versos 1 a 3)
1.
A Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, disse: Ensinei esta imperecível
ciência da yoga ao deus do Sol, Vivasvan, e Vivasvan ensinou-a a
Manu, o pai da humanidade, e Manu, por sua vez, ensinou-a a Iksvaku. 2.
Esta ciência suprema foi então recebida através da
corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na
dessa maneira. Porém, com o passar do tempo, a sucessão
foi interrompida, e portanto a ciência como ela é parece
ter-se perdido. 3. Esta antiquíssima ciência da relação
com o Supremo é falada hoje a ti por Mim porque és Meu devoto
bem como Meu amigo e podes portanto entender o mistério transcendental
que há nesta ciência.
Aqui fica
claro que o Bhagavad-gita é um tratado espiritual especialmente
destinado ao bhakta, ou devoto do Senhor. Na verdade, segundo o próprio
Senhor, os jñanis, ou especuladores filosóficos, e os yogis,
ou os que se limitam às práticas ióguicas mecânicas,
não podem tirar o verdadeiro proveito do Bhagavad-gita. Portanto,
o Senhor diz claramente que escolhera Arjuna para receber este conhecimento
devido às suas qualidades devocionais. A bhakti-yoga só
pode ser praticada com conhecimento transcendental e este conhecimento
é um grande segredo, pois inclui o conhecimento sobre a natureza
espiritual da Suprema Personalidade de Deus. Além de devoto, Arjuna
era um amigo sincero do Senhor e, devido à sua fidelidade, era
qualificado para penetrar nos mistérios da compreensão acerca
do Senhor Krishna.
O Senhor informa aqui que este sistema de yoga foi primeiramente falado
ao deus do Sol e o deus do Sol o explicou a Svayambhuva Manu, que o transmitiu
a Maharaja Iksvaku e assim por diante. A história do Bhagavad-gita,
portanto, remonta a um tempo muito antigo, quando foi entregue à
ordem real, começando pela deidade que preside o planeta Sol. Isto
revela que, através de um orador para outro, este sistema de yoga
foi transmitido através da sucessão discipular, conhecida
como parampara, para a proteção de todos os habitantes.
Todos as pessoas com cargos de responsabilidade devem compreender o Bhagavad-gita
e assim ajudar a proteger os cidadãos do cativeiro material produzido
pela luxúria. Este conhecimento é essencial para se cumprir
o propósito da vida humana, mas, devido à influência
do poderoso tempo eterno, a transmissão deste conhecimento através
da sucessão discipular foi interrompida e o conhecimento se perdeu.
Como consequência disto, o Senhor deseja apresentá-lo novamente
e escolheu Seu amigo Arjuna, o qual estava no Campo de Batalha de Kurukshetra,
como alguém qualificado para recebê-lo. Isto indica que melhor
compreende o Bhagavad-gita a pessoa que tem qualidades semelhantes às
de Arjuna. Ela deve tornar-se devota do Senhor e desenvolver seu relacionamento
de serviço amoroso direto ao Senhor. Arjuna já era perfeito
em serviço devocional e, por isso, relacionava-se com o Senhor
na condição de amigo transcendental. De qualquer modo, apesar
de, em nosso atual estado de vida, termos nos esquecido do Senhor, esta
relação poderá ser revivida se seguimos os passos
de Arjuna e aceitamos Krishna como nosso verdadeiro refúgio.
Pérola
24. A NATUREZA TRANSCENDENTAL DO SENHOR (versos 4 a 6)
4.
Arjuna disse: O deus do Sol, Vivasvan, nasceu antes de Ti. Como poderei
entender que, no começo, ensinaste-lhe esta ciência? 5. A
Personalidade de Deus disse: Tu e Eu já passamos por muitos e muitos
nascimentos. Posso lembrar-Me de todos eles, mas tu não podes,
ó subjugador do inimigo! 6. Embora Eu seja não nascido e
Meu corpo transcendental jamais se deteriore, e embora Eu seja o Senhor
de todas as entidades vivas, mesmo assim, em cada milênio Eu apareço
sob Minha forma transcendental original.
Aqui,
revela-se a característica especial do nascimento do Senhor: embora
apareça como um ser humano comum, Ele Se lembra dos pormenores
de Seus outros milhares de nascimentos anteriores. Esta é a diferença
entre o Senhor e um ser vivo comum. O Senhor possui um corpo espiritual
eterno, livre de nascimento, velhice, doença ou morte, e por isso
Ele pode Se lembrar dos atos que Ele executou há milhões
de anos. Um ser vivo comum muda de um corpo para outro e sua memória
é tão limitada que mal pode se lembrar do que fez em algumas
horas atrás. Assim, ninguém pode nunca se igualar ao Senhor.
O Senhor possui um corpo eterno e transcendental. Seu corpo é,
na verdade, idêntico a Ele e, mesmo descendo ao mundo material,
Ele Se mantém na plataforma transcendental – livre de toda
e qualquer ilusão. Sempre que aparece, Ele o faz através
de Sua própria potência interna e a Seu bel-prazer. O Seu
corpo nunca se deteriora, mas, mesmo assim, Ele passa da infância
à juventude e surpreendentemente nunca ultrapassa esta fase. Mesmo
na época da Batalha de Kurukshetra quando o Senhor já estava
cheio de netos, Sua aparência era jovial, como se tivesse vinte
ou no máximo vinte e cinco anos. Embora seja a pessoa mais velha,
nem Seu corpo nem Sua inteligência jamais se deterioram. Assim como
o poderoso Sol, Ele aparentemente “nasce” e “morre”.
Na verdade, o Sol está praticamente fixo em sua posição,
só que, devido a nossos sentidos precários, calculamos o
seu “nascimento” e “morte”. De forma semelhante,
o Senhor é não-nascido. Ele aparece diante de nossa visão,
executa atividades para o bem-estar de todos e, ao concluir Sua missão,
desaparece de nossa visão, tornando-Se imanifesto. Ele é
Um, mas manifesta-Se sob inúmeras formas e todas estas variadas
formas são compreendidas pelos devotos puros e imaculados, mas
nunca por uma pessoa que simplesmente se limita a estudar os Vedas. Devotos
puros como Arjuna, os quais são companheiros eternos do Senhor,
sempre encarnam com Ele para prestar-Lhe diferentes classes de serviços.
Porém, a diferença é que o Senhor pode Se lembrar
de todos os Seus aparecimentos, ao passo que Seu devoto os esquece.
Devotos puros como Arjuna estão sempre acima de qualquer dúvida
ou mal-entendido acerca da natureza espiritual do Senhor. Portanto, como
ficará cada vez mais claro, Arjuna compreende muito bem que o Senhor
Krishna é a Pessoa Suprema, a causa de todas as causas. Ainda assim,
por estar representando o papel de uma pessoa confusa, em todo o Bhagavad-gita
Arjuna tem de levantar diferentes questões importantes. Será
que ele tem dúvidas quanto às afirmações apresentadas
por Krishna? Evidentemente que não. Arjuna não está
querendo esclarecer suas próprias dúvidas. Mas, como os
homens comuns estão às voltas com muitos questionamentos
e sentem grande dificuldade em compreender os tópicos do Bhagavad-gita,
Arjuna teve de assumir este importante papel. Além disso, Arjuna
estava tendo a oportunidade de ouvir diretamente do Senhor, o que para
os devotos puros como Arjuna é extremamente prazeroso.
Pérola
25. O PROPÓSITO DO APARECIMENTO DO SENHOR (versos 7 a
11)
7.
Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa,
ó descendente de Bharata, e um aumento predominante da irreligião
– neste momento Eu próprio desço. 8. Para libertar
os piedosos e aniquilar os canalhas, bem como para restabelecer os princípios
da religião, Eu mesmo apareço, milênio após
milênio. 9. Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu
aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer
neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna,
ó Arjuna. 10. Estando livres do apego, do medo e da ira, estando
plenamente absortas em Mim e refugiando-se em Mim, muitas e muitas pessoas
no passado purificaram-se através do conhecimento a respeito de
Mim – e com isso todas alcançaram transcendental amor por
Mim. 11. A todos Eu recompenso proporcionalmente ao grau de sua rendição
a Mim. Ó filho de Pritha, em qualquer circunstância, todos
seguem o Meu caminho.
Sob a ordem
do Senhor, os Vedas apresentam diferentes princípios religiosos,
mas quando existem discrepâncias quanto à execução
apropriada das regras contidas nos Vedas, o mundo todo torna-se irreligioso.
Neste momento, o Senhor desce do Seu reino espiritual e aparece como um
avatara, uma encarnação divina. Ele o faz por Sua própria
vontade, devido à misericórdia que sente por Seus devotos
que estão no mundo material. Tais devotos são sempre molestados
por pessoas demoníacas que tentam propagar suas filosofias mundanas
ou distorcer o verdadeiro significado da religião. Na verdade,
para conseguir se libertar do cativeiro material, a entidade viva precisa
vencer sérias dificuldades. Para tal, nada melhor do que aceitar
a ajuda do Senhor na forma do conhecimento védico, do mestre espiritual
e da associação com os devotos. Só assim ela poderá
compreender a natureza transcendental do corpo e das atividades do Senhor
e, como resultado, após findar este corpo, não correr o
risco de voltar a este mundo material.
Os Vedas nos declaram que embora seja Um, a mesmíssima Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Se manifesta em muitíssimas formas
e encarnações. Evidentemente, isto é incompreensível
para os eruditos mundanos e filósofos empíricos, embora
o devoto puro possa compreender este fato com completa convicção.
Nesta parte do Bhagavad-gita, o Senhor confirma de fato que, sempre e
onde quer que existe a necessidade, Ele aparece para resgatar Seus devotos
queridos. Tais devotos compreendem que o nascimento e as atividades do
Senhor são completamente espirituais e, aceitando esta verdade
com fé, eles não perdem tempo com especulações
filosóficas inúteis. O Senhor declara que, mesmo no passado,
muitas pessoas adotaram o serviço devocional amoroso e se livraram
dos diferentes obstáculos deste mundo, os quais se apresentam na
forma de apego, medo e ira. Portanto, o Senhor Krishna encoraja Seu amigo
e discípulo Arjuna a praticar a consciência de Krishna e
conclui que devemos cultivá-la com fé e conhecimento, e
com isto alcançar a perfeição. Com certeza, o Senhor
irá recompensar a tentativa sincera empreendida pelo devoto que,
apesar das dificuldades encontradas neste mundo, persiste em praticar
serviço devocional ao Senhor.
Pérola
26. AS COMPLEXIDADES DA AÇÃO (versos 12 a 24)
12.
Neste mundo, os homens desejam sucesso nas atividades fruitivas, e por
isso adoram os semideuses. Rapidamente, é claro, os homens obtêm
neste mundo os resultados do trabalho fruitivo. 13. Conforme os três
modos da natureza material e o trabalho referente a eles, as quatro divisões
da sociedade humana são criadas por Mim. E embora Eu seja o criador
deste sistema, deves saber que, sendo Eu imutável, continuo como
a pessoa que não age. 14. Não há trabalho que Me
afete; tampouco Eu aspiro aos frutos da ação. Aquele que
entende esta verdade sobre Mim também não se enreda nas
reações do trabalho fruitivo. 15. Em tempos antigos, todas
as almas liberadas agiram com esta compreensão acerca de Minha
natureza transcendental. Portanto, deves executar teu dever, seguindo-lhes
os passos. 16. Até mesmo os inteligentes ficam confusos em determinar
o que é ação e o que é inação.
Agora, passarei a explicar-te o que é ação, e conhecendo
isto te libertarás de todo o infortúnio. 17. É dificílimo
entender as complexidades da ação. Portanto, deve-se saber
apropriadamente o que é ação, o que é ação
proibida e o que é inação. 18. Quem vê inação
na ação, e ação na inação, é
inteligente entre os homens, e está na posição transcendental,
embora ocupado em todas as espécies de atividades. 19. Tem conhecimento
pleno quem, em cada esforço seu, não apresenta desejo de
gozo dos sentidos. Os sábios dizem que tal pessoa é um trabalhador
cujas reações do trabalho foram queimadas pelo fogo do conhecimento
perfeito. 20. Abandonando todo o apego aos resultados de suas atividades,
sempre satisfeito e independente, ele não executa nenhuma ação
fruitiva, embora ocupado em todas as espécies de empreendimentos.
21. Tal homem de compreensão age com a mente e a inteligência
sob perfeito controle, deixa de ter qualquer sentimento de propriedade
por suas posses e age apenas para obter as necessidades mínimas
da vida. Trabalhando assim, ele não é afetado por reações
pecaminosas. 22. Aquele que se contenta com o ganho que vem automaticamente,
que
está livre de dualidade e não inveja, que é estável
no sucesso e no fracasso, nunca se enreda, embora execute ações.
23. O trabalho do homem que não está apegado aos modos da
natureza material e que está situado em pleno conhecimento transcendental
imerge por completo na transcendência. 24. Quem se absorve por completo
em consciência de Krishna com certeza alcançará o
reino espiritual por causa de sua plena contribuição às
atividades espirituais, cuja execução é absoluta
e nelas tudo o que se oferece é da mesma natureza espiritual.
O
processo através do qual a pessoa pode se livrar do cativeiro das
ações é chamado de consciência de Krishna,
onde tudo passa a ser feito para a satisfação do Senhor.
Quem é consciente de Krishna age por amor à Suprema Personalidade
de Deus e vive livre de interesses egoístas. Para se alcançar
esta fase elevada, é necessário seguir a liderança
de pessoas autorizadas que estão na linha de sucessão discipular,
como se explicou no início deste capítulo. Os exemplos deixados
pelos devotos autênticos anteriores são perfeitos e devemos
segui-los, caso contrário, mesmo homens muito inteligentes ficarão
confusos no que se refere às ações reguladoras existentes
na consciência de Krishna. Os princípios religiosos são
estabelecidos diretamente pelo Senhor. Isto significa que ninguém
pode criar sua própria maneira de agir baseado no seu conhecimento
experimental imperfeito. A alma condicionada vive absorta em suas especulações
mentais e não consegue determinar o verdadeiro significado de religião
e auto-realização transcendental. Portanto, bondosamente
o Senhor explica a Arjuna e a todos nós o verdadeiro significado
de ação, inação e ação proibida,
pois qualquer pessoa que estiver decidida a libertar-se deste cativeiro
material terá de compreender muito bem tais tópicos.
Ao tornar-se consciente de Krishna, a pessoa aprende naturalmente a relacionar-se
com o Senhor Supremo e com as demais entidades vivas. Compreendendo que
todo ser vivo é um servo eterno do Senhor, ela compreenderá
que todas as suas ações devem visar à satisfação
do Senhor, o que é chamado de karma-yoga. Qualquer conclusão
que leve a pessoa a agir de uma maneira diferente é considerada
vikarma, ou ação proibida. Isto pode ser facilmente compreendido
quando nos aproximamos do mestre espiritual, uma verdadeira autoridade
na consciência de Krishna. Agir em consciência de Krishna
significa agir em prol da satisfação de Krishna e isto torna
a pessoa completamente livre do cativeiro do karma. Tal pessoa, materialmente
falando, está completamente inativa, pois seu sentimento de servidão
a Krishna faz com que ela se torne akarma, uma pessoa imune a todas as
espécies de reações ao trabalho. O conhecimento sobre
a ação em consciência de Krishna é verdadeiro
conhecimento e é comparado ao fogo, sendo capaz de queimar todas
as espécies de reações ao trabalho. A palavra brahman
significa “espiritual”. O Senhor é o Supremo Brahman
e qualquer atividade oferecida a Ele também torna-se brahman, ou
espiritual. Na verdade, o resultado desta atividade e o próprio
executor também se tornam brahman, ou espirituais, devido à
influência espiritual do Senhor. A energia material, conhecida como
maya, é também considerada divina, sendo uma das energias
do Senhor. Quando utilizada para propósitos materiais, esta maya
atua para confundir a alma condicionada que acaba desenvolvendo apego
e desejo de posse por ela. Mas, quando é utilizada no serviço
amoroso ao Senhor, esta mesma maya readquire sua qualidade espiritual,
tornando-se brahman. Este é, portanto, o método transcendental
da consciência de Krishna: utilizar tudo a serviço do Senhor,
onde a execução, o executor e o resultado último
– tudo – se une no Absoluto e atinge a plataforma espiritual.
Pérola
27. OS DIFERENTES TIPOS DE SACRIFÍCIOS (versos 25 a 33)
25.
Alguns yogis adoram perfeitamente os semideuses, oferecendo-lhes diferentes
sacrifícios, e alguns deles oferecem sacrifícios no fogo
do Brahman Supremo. 26. Alguns (os brahmacharis verdadeiros) sacrificam
a faculdade auditiva e os sentidos no fogo do controle mental; e outros
(os chefes de família regulados) sacrificam os objetos dos sentidos
no fogo dos sentidos. 27. Outros, que se interessam em obter a auto-realização
através do controle da mente e dos sentidos, oferecem as funções
de todos os sentidos e do alento vital como oblações no
fogo da mente controlada. 28. Tendo feito votos estritos, alguns se iluminam
sacrificando seus bens, e outros, executando austeridades rigorosas, praticando
a yoga do misticismo óctuplo (astanga-yoga) ou estudando os Vedas
para progredir no conhecimento transcendental. 29. E outros, que estão
inclinados ao processo de restrição da respiração
para permanecer em transe, praticam oferecendo no alento inspirado o movimento
do alento expirado, e no alento expirado o alento inspirado, e assim acabam
entrando em transe, suspendendo toda a respiração. Outros,
restringindo o processo alimentar, oferecem como sacrifício o alento
expirado neste mesmo alento. 30. Todos estes executores que sabem o significado
do sacrifício purificam-se das reações pecaminosas,
e, tendo saboreado o néctar dos resultados dos sacrifícios,
avançam em direção à atmosfera eterna e suprema.
31. Ó melhor da dinastia Kuru, sem sacrifício a pessoa jamais
pode viver feliz neste planeta ou nesta vida; que se dizer da próxima,
então? 32. Os Vedas aprovam todos estes diferentes tipos de sacrifício,
e todos eles surgem de diferentes classes de trabalho. Tu te libertarás
ao conhecê-los assim. 33. Ó castigador do inimigo, o sacrifício
executado com conhecimento é melhor do que o mero sacrifício
dos bens materiais. Afinal de contas, ó filho de Pritha, todos
os sacrifícios do trabalho culminam em conhecimento transcendental.
Como
aprendemos aqui no Bhagavad-gita, a alma condicionada, absorta na matéria,
pode curar-se por meio da consciência de Krishna. Este processo
também é conhecido como yajña (sacrifícios),
ou seja, atividades destinadas à satisfação do Senhor
Vishnu, ou Krishna. Tais sacrifícios podem ser de diferentes categorias.
Os bhaktas, ou aqueles que estão em consciência de Krishna,
executam sacrifícios para a satisfação do Senhor
e são considerados os mais perfeitos yogis. Os karmis, no entanto,
desejam felicidade material advinda do gozo dos sentidos. Desse modo,
eles executam sacrifícios para a satisfação dos semideuses,
tais como Indra, Surya, etc. Tais semideuses são seres poderosos,
pois são designados pelo Senhor para administrar os diferentes
departamentos da criação material, tais como irrigação,
aquecimento, iluminação, etc., do Universo. Há também
aqueles que, sendo impersonalistas, sacrificam sua identidade material
e espiritual para fundir-se na existência do Absoluto. De qualquer
modo, qualquer pessoa interessada em obter auto-realização
material ou espiritual deve adotar os vários sacrifícios
conforme os rituais prescritos nos Vedas. A essência da vida dos
estudantes transcendentalistas (brahmacharis) é a austeridade,
por isso eles devem dedicar-se a ouvir o conhecimento védico da
boca de lótus de um mestre espiritual puro e, assim, abster-se
completamente do gozo dos sentidos. Os chefes de família (grihasthas)
podem se purificar através do sacrifício sob a forma da
caridade. Eles possuem alguma licença para o gozo dos sentidos,
mas, ainda assim, executam-no com bastante restrição. Portanto,
o casamento religioso é um sacrifício que visa a restringir
a vida sexual das pessoas. Uma pessoa na ordem de vida renunciada (sannyasi)
deve executar sacrifícios que beneficiem todas as outras classes
de pessoas, por isso seu principal dever prescrito é a propagação
da consciência de Krishna. Todas estas práticas chamam-se
yoga-yajña, e são diferentes sacrifícios para se
obter diferentes perfeições espirituais. Além disso,
há sacrifícios de diferentes naturezas. Há pessoas
que sacrificam seus bens materiais e abrem várias espécies
de instituições de caridade, asilos, hospitais, etc. Outras
pessoas preferem executar grandes austeridades e fazem votos estritos,
vivendo livre de qualquer espécie de conforto material. Há
outros que, com o propósito de controlar seus sentidos e progredir
em compreensão espiritual, praticam a yoga apresentada por Patañjali,
dedicando-se a diferentes técnicas ióguicas. Todas estas
diferentes classes de pessoas estão fielmente ocupadas em suas
diferentes classes de sacrifícios e procuram uma situação
de vida superior. Dependendo do grau de consciência, os sacrifícios
ora fazem parte da seção karma-kanda (atividades fruitivas),
ora jñana-kanda (conhecimento em busca da verdade).
A consciência de Krishna, entretanto, é diferente de tudo
isto porque é serviço direto ao Senhor Supremo. A consciência
de Krishna não pode ser alcançada por nenhuma das atividades
acima mencionadas, mas só pode ser conseguida pela misericórdia
do Senhor e Seus devotos autênticos. Nesta atual era de Kali as
pessoas geralmente têm muita dificuldade em praticar o autocontrole
e não têm uma mente tranquila para praticar yoga ou meditação.
Além disso, as pessoas desta era vivem pouco, demoram muito a compreender
o que é vida espiritual e estão sempre perturbadas por constantes
ansiedades. Portanto, as escrituras védicas enfatizam o sacrifício
conhecido como sankirtana-yajña, o cantar dos santos nomes do Senhor:
Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare, Hare Rama Hare Rama
Rama Rama Hare Hare.
Pérola
28. A FORÇA DO CONHECIMENTO TRANSCENDENTAL (versos 34
a 42)
34.
Tenta aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Faze-lhe
perguntas com submissão e presta-lhe serviço. As almas auto-realizadas
te podem transmitir conhecimento porque viram a verdade. 35. Tendo recebido
verdadeiro conhecimento de uma alma auto-realizada, jamais voltarás
a cair nessa ilusão, pois, com este conhecimento, verás
que todos os seres vivos são apenas partes do Supremo, ou, em outras
palavras, que eles são Meus. 36. Mesmo que sejas considerado o
mais pecaminoso de todos os pecadores, quando estiveres situado no barco
do conhecimento transcendental serás capaz de cruzar o oceano de
misérias. 37. Assim como o fogo ardente transforma a lenha em cinzas,
ó Arjuna, do mesmo modo, o fogo do conhecimento reduz a cinzas
todas as reações às atividades materiais. 38. Neste
mundo, não há nada tão sublime e puro como o conhecimento
transcendental. Esse conhecimento é o fruto maduro de todo o misticismo.
E aquele que se familiarizou com a prática do serviço devocional
desfruta este conhecimento dentro de si no devido curso do tempo. 39.
Um homem fiel que se dedica ao conhecimento transcendental e que subjuga
seus sentidos está qualificado para conseguir este conhecimento,
e, tendo-o alcançado, obtém rapidamente a paz espiritual
suprema. 40. Mas as pessoas ignorantes e sem fé, que duvidam das
escrituras reveladas, não alcançam a consciência de
Deus; elas acabam caindo. Para a alma incrédula não há
felicidade nem neste mundo nem no próximo. 41. Aquele que age em
serviço devocional, renunciando aos frutos de suas ações,
e cujas dúvidas foram destruídas pelo conhecimento transcendental,
está de fato situado no eu. Assim, ele não está atado
às reações do trabalho, ó conquistador de
riquezas. 42. Portanto, as dúvidas que, por ignorância, surgiram
em teu coração devem ser cortadas com a arma do conhecimento.
Armado com a yoga, ó Bharata, levanta-te e luta.
É
necessário aproximar-se de um mestre espiritual genuíno
para se obter o conhecimento transcendental. Um mestre genuíno
tem de, antes de mais nada, fazer parte da linha de sucessão discipular
proveniente do próprio Senhor, pois ninguém pode alcançar
a auto-realização espiritual fabricando seu próprio
processo. Tal mestre espiritual mantém intacta a mensagem original
do Senhor e a transmite sem interpretações materialmente
motivadas. Ele aprendeu este conhecimento, rendendo-se ao seu mestre espiritual,
e, assim, passou a entender as coisas como elas são. O mestre espiritual
deve ter uma compreensão prática de que todos os seres vivos
são partes integrantes da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor
Krishna. Portanto, seus ensinamentos se destinam a convencer o discípulo
que o ser vivo, como servo eterno de Krishna, não pode estar separado
do Senhor, e quando uma pessoa sente que sua identidade é separada
do Senhor, deve-se saber que ela está sob os encantos de maya,
a energia ilusória. Por isso, o mestre espiritual ensina o discípulo
a prestar serviço devocional puro, livrando-o gradualmente da busca
pelos resultados fruitivos e da especulação mental. Quem
presta serviço devocional ao Senhor, sob a guia de um verdadeiro
mestre espiritual, imediatamente livra-se da ilusão que faz com
que um ser vivo equivocado manifeste interesses diferentes dos interesses
do Senhor. Portanto, como exemplificado por Arjuna no início do
segundo capítulo, ninguém é capaz de resolver seus
problemas e desenvolver conhecimento perfeito sem a ajuda do mestre espiritual.
Desse modo, o discípulo aprende a se relacionar com seu mestre
espiritual através do serviço amoroso humilde, sem falso
prestígio.
Evidentemente, não se trata de obediência cega, pois é
necessário um entendimento bastante claro do que é verdadeira
vida espiritual. Com submissão autêntica, o discípulo
faz constantes indagações filosóficas a seu mestre
espiritual, o qual, sendo por natureza muito bondoso, fica satisfeito
e revela o segredo do conhecimento espiritual. Desse modo, não
importa quão pecaminosa uma pessoa possa ter sido. Se ela adota
as instruções do mestre espiritual e age baseada somente
no conhecimento transcendental recebido, todas as suas reações
kármicas são completamente eliminadas. Este conhecimento
é, portanto, a causa da liberação, ao passo que a
ignorância é a causa do cativeiro material. Este é
o importante significado desta passagem do Bhagavad-gita.
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