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CAPÍTULO
III: Karma-yoga
Pérola
17. SEGUINDO A PRÓPRIA NATUREZA (versos 1 a 8)
1.
Arjuna disse: Ó Janardana, ó Keshava, por que queres ocupar-me
nesta guerra terrível, se achas que a inteligência é
melhor do que o trabalho fruitivo? 2. Minha inteligência ficou confusa
com Tuas instruções equívocas. Portanto, dize-me
definitivamente o que me será mais benéfico. 3. A Suprema
Personalidade de Deus disse: Ó virtuoso Arjuna, acabei de explicar
que há duas classes de homens que tentam compreender o eu. Alguns
se inclinam a compreendê-lo pela especulação filosófica
empírica, e outros, pelo serviço devocional. 4. Não
é possível livrar-se da reação só porque
se deixa de agir, nem pode alguém atingir a perfeição
só porque pratica a renúncia. 5. Todos são irremediavelmente
forçados a agir segundo as qualidades que adquirem nos modos da
natureza material; portanto, ninguém pode deixar de fazer algo,
nem mesmo por um momento. 6. Aquele que impede os sentidos de agir, mas
não afasta sua mente dos objetos dos sentidos, decerto ilude a
si mesmo e não passa de um impostor. 7. Por outro lado, se uma
pessoa sincera utiliza a mente para tentar controlar os sentidos ativos
e passa então a praticar karma-yoga sem apego, ela é muito
superior. 8. Executa teu dever prescrito, pois este procedimento é
melhor do que não trabalhar. Sem trabalho, não se pode nem
ao menos manter o corpo físico.
Pudemos ver
no capítulo anterior duas espécies de procedimentos para
quem busca a auto-realização – sankhya-yoga, o estudo
analítico da natureza material e espiritual, e karma-yoga, a qual
é também conhecida como buddhi-yoga, ou a ação
baseada no conhecimento espiritual através da qual fica-se livre
de qualquer reação material. O processo de sankhya é
geralmente aceito por pessoas inclinadas a especular filosoficamente e
a compreender as coisas através do conhecimento experimental. Tais
pessoas costumam se afastar da vida ativa e dedicam-se a praticar penitências
e austeridades num lugar isolado. Em karma-yoga, porém, a pessoa
sente grande prazer espiritual em agir para a satisfação
de Krishna. Portanto, ao invés de se afastar das atividades tidas
como materiais, o karma-yogi aprende a arte de espiritualizar tais atividades,
enquanto permanece ocupado de acordo com a sua própria natureza.
Como as pessoas comuns sentem muita dificuldade em compreender que em
karma-yoga não é necessário afastar-se das atividades
materiais e sim afastar-se do gozo dos sentidos materiais, Arjuna pede
para o Senhor Krishna definitivamente tornar este tema mais claro. Como
resposta, o Senhor diz que simplesmente por se afastar das atividades
mundanas, a pessoa não pode manter-se livre das reações.
A condição de Arjuna como um kshatriya era um exemplo perfeito
disso, pois, caso ele renunciasse a luta, estaria incorrendo em pecado
e certamente teria de sofrer severas reações. Ao seguir
sua própria natureza, qualquer pessoa consciente de Deus sente
grande satisfação em se ocupar no serviço devocional
amoroso e, gradualmente, obtém grandes percepções
a nível material e espiritual. No entanto, quando a pessoa tenta
contrariar sua natureza, reprimindo suas tendências naturais, ela
se depara com uma luta constante com seus sentidos e mente, cujo resultado
é o inevitável enfraquecimento espiritual.
A conclusão é que todos devem permanecer na sua própria
ocupação natural com o propósito de alcançar
o objetivo da vida, em vez de se tornar um pseudotranscendentalista que
se recusa a trabalhar em consciência de Krishna enquanto a mente
permanece apegada aos objetos dos sentidos. Em outras palavras, enquanto
se vive neste mundo material, não se deve abandonar caprichosamente
o trabalho, pois a propensão a dominar a natureza material e satisfazer
os sentidos é realmente muito forte. Estas propensões mundanas
precisam ser purificadas e, para isso, é mais adequado nos ocuparmos
em nossos deveres prescritos e oferecermos os frutos desta ocupação
como uma oferenda devocional ao Senhor. Tal oferecimento é chamado
yajña, ou sacrifício.
Pérola
18. A IMPORTÂNCIA DO SACRIFÍCIO (versos 9 a 16)
9.
Deve-se realizar o trabalho como um sacrifício a Vishnu; caso contrário,
o trabalho produz cativeiro neste mundo material. Portanto, ó filho
de Kunti, executa teus deveres prescritos para a satisfação
dEle, e desta forma sempre permanecerás livre do cativeiro. 10.
No início da criação, o Senhor de todas as criaturas
enviou muitas gerações de homens e semideuses, que deveriam
dedicar-se a executar sacrifícios para Vishnu, e abençoou-os
dizendo: “Sede felizes com este yajña (sacrifício)
porque sua execução outorgar-vos-á tudo o que é
desejável para viverdes com felicidade e alcançardes a liberação”.
11. Os semideuses, estando contentes com os sacrifícios, também
vos agradarão, e assim, pela cooperação entre homens
e semideuses, a prosperidade reinará para todos. 12. Cuidando das
várias necessidades da vida, os semideuses, estando satisfeitos
com a realização de sacrifício, suprirão todas
as vossas necessidades. Mas aquele que desfruta destas dádivas
sem oferecê-las aos semideuses como reconhecimento é certamente
um ladrão. 13. Os devotos do Senhor libertam-se de todas as espécies
de pecados porque comem alimento que primeiramente é oferecido
como sacrifício. Outros, que preparam alimento para o próprio
gozo dos sentidos, na verdade comem apenas pecado. 14. Todos os corpos
vivos subsistem de grãos alimentícios, que são produzidos
das chuvas. As chuvas são produzidas pela execução
de sacrifício, e o sacrifício nasce dos deveres prescritos.
15. As atividades reguladas são prescritas nos Vedas, e os Vedas
manifestam-se diretamente da Suprema Personalidade de Deus. Por conseguinte,
a Transcendência onipenetrante situa-Se eternamente nos atos de
sacrifício. 16. Meu querido Arjuna, aquele que, na vida humana,
não segue esse ciclo de sacrifício estabelecido pelos Vedas
certamente leva uma vida cheia de pecado. Vivendo só para a satisfação
dos sentidos, tal pessoa vive em vão.
A prosperidade
humana é completamente dependente das dádivas naturais,
as quais são supridas pela misericórdia do Senhor. Portanto,
se a civilização humana for consciente de Deus e viver de
modo simples, voltada principalmente para seu interesse em auto-realização,
o Senhor estará satisfeito e abençoará a todos, suprindo-os
com amplo fornecimento de opulências materiais. Como está
claramente explicado aqui, a lei natural dá permissão para
que, através do processo conhecido como yajña ou sacrifício,
os seres humanos piedosos tirem o máximo proveito das dádivas
divinas presentes na natureza. Porém, o homem materialista não
é capaz de compreender este fato e se dedica a uma vida artificial
que supervaloriza os empreendimentos industriais. Isto se deve unicamente
à visão ateísta do homem moderno, que perdeu sua
consciência de Deus e, por isso, tem causado uma condição
de vida infernal, vivendo em função da exploração
predatória da natureza material.
Fica claro, portanto, que, para nos mantermos afastados de todas as espécies
de contaminações produzidas pela associação
mundana no mundo material, devemos executar yajñas, ou sacrifícios,
assumindo nossos deveres prescritos em consciência de Krishna da
forma mais impecável possível.
Como foi discutido anteriormente, a atração dos sentidos
pelos objetos é inevitável. Os olhos desejam contemplar
belas formas, os ouvidos querem ouvir sons agradáveis, o paladar
deseja saborear alimentos saborosos e assim por diante. Desse modo, uma
pessoa que queira evitar os perigos da contaminação material
terá de impedir que os sentidos materiais se ocupem em desfrutar
dos objetos dos sentidos mundanos, redirecionando-os para os objetos dos
sentidos espirituais. Isso é o verdadeiro conceito de sacrifício
– tirar os sentidos do contato com a matéria e colocá-los
a serviço do Senhor. Utilizando os sentidos para a satisfação
do Senhor, a pessoa alcança a posição de liberação
e, no devido tempo, retorna ao reino de Deus. Por outro lado, não
agindo para a satisfação do Senhor, qualquer pessoa terá
de permanecer neste mundo material, tentando inutilmente satisfazer seus
sentidos, e terá de conviver com diferentes reações
materiais que, certamente, irão ser a causa de sofrimento material.
O verdadeiro propósito dos sacrifícios é satisfazer
a Pessoa Suprema, o Senhor dos sacrifícios. Quando os sacrifícios
são devidamente executados, o Senhor dos sacrifícios Se
torna satisfeito e, como consequência, os semideuses, os quais são
agentes que têm autoridade para agir em nome da Suprema Personalidade
de Deus, também se satisfazem. Como encarregados dos diferentes
departamentos de fornecimentos, os semideuses, satisfeitos, não
permitem que haja escassez de recursos naturais. Eles são considerados
como partes do Senhor e, por agirmos em consciência de Krishna,
estaremos servindo e satisfazendo o Todo, o que inclui naturalmente a
satisfação de Suas partes, os semideuses. É importante
compreender que os diferentes sacrifícios recomendados nos Vedas
para a satisfação dos semideuses são, em última
análise, oferecidos à Suprema Personalidade de Deus. Tais
sacrifícios são executados para que os semideuses possam
fornecer ar, luz e água suficientes para que haja produção
de grãos alimentícios em abundância. No entanto, quando
o Senhor Krishna é adorado, os semideuses, que são diferentes
membros do Senhor, são também automaticamente adorados,
sendo desnecessário um esforço em adorá-los independentemente
do Senhor. A conclusão é que a adoração dos
semideuses é executada por aqueles que têm insuficiente fundo
de conhecimento. Ainda assim, através deste processo, uma pessoa
poderá se livrar da reação pecaminosa de usurpar
as substâncias naturais que, sob a sanção superior
do Senhor, são fornecidas pelos semideuses. Devemos compreender,
portanto, que as necessidades da vida são os cereais, as frutas,
o leite, etc. – os quais são supridos unicamente pelos semideuses
dotados de poderes divinos. Os seres humanos não podem fabricar
o calor, a luz, o ar, a água, etc., sem os quais ninguém
pode viver. Torna-se completamente evidente que nossa vida depende das
substâncias naturais fornecidas pelo Senhor e devemos fazer um uso
apropriado delas para nos manter saudáveis e em condições
adequadas para a auto-realização espiritual. Porém,
se aquilo que recebemos do Senhor e de Seus agentes for utilizado para
mero gozo dos sentidos, certamente nos tornaremos ladrões e teremos
de ser punidos pelas leis da natureza material.
Pérola
19. PARA A ALMA AUTO-REALIZADA NÃO HÁ DEVER (versos
17 a 20)
17.
Mas para quem sente prazer no eu e utiliza a vida humana para buscar a
auto-realização, satisfazendo-se apenas com o eu, ficando
plenamente saciado – para ele não há dever. 18. Um
homem auto-realizado não tem propósito a cumprir no desempenho
de seus deveres prescritos, tampouco tem ele alguma razão para
não executar tal trabalho. Nem tem ele necessidade alguma de depender
de nenhum outro ser vivo. 19. Portanto, sem se apegar aos frutos das atividades,
tem-se de agir por uma questão de dever, pois, trabalhando sem
apego, alcança-se o Supremo. 20. Reis tais como Janaka alcançaram
a perfeição com a simples execução dos deveres
prescritos. Portanto, apenas para educar o povo em geral, deves executar
teu trabalho.
Os rituais
védicos, tais como os sacrifícios prescritos, visam à
purificação das atividades passadas de uma pessoa que se
entregou ao gozo dos sentidos; por isso, eles são imprescindíveis
para pessoas que relutam em se ocupar a serviço do Senhor. Quem
é consciente de Krishna, porém, se ocupa em atividades espirituais,
as quais são livres das reações boas ou más.
Tais almas puramente conscientes de Krishna são auto-realizadas
e inteiramente desapegadas das atividades deste mundo. No entanto, ainda
que não tenha interesses pessoais por este mundo, uma pessoa completamente
consciente de Krishna deve se ocupar de uma maneira exemplar e cumprir
o propósito de ensinar a todos como se deve agir e como se deve
viver. Ainda assim, tal pessoa realmente consciente de Krishna atuará
sempre para o prazer do Senhor e, desse modo, irá manter-se inteiramente
satisfeita. Para tal pessoa, na verdade, não haveria mais necessidade
de aceitar deveres prescritos específicos, pois, pela graça
do Senhor, todas as impurezas que existiam em seu coração,
resultado acumulado de muitas e muitas vidas, são eliminadas através
de suas atividades devocionais. Evidentemente, nem o Senhor Krishna nem
Seu amigo Arjuna precisariam ocupar-se na Batalha de Kurukshetra. Eles
só lutaram para ensinar as pessoas que a violência às
vezes se faz necessária, especialmente quando ela visa à
proteção da religiosidade.
Pérola
20. O COMPORTAMENTO EXEMPLAR DO SENHOR KRISHNA (versos 21 a 24)
21.
Seja qual for a ação executada por um grande homem, os homens
comuns seguem, e o mundo inteiro procura imitar todos os padrões
que ele estabelece através de seus atos exemplares. 22. Ó
filho de Pritha, não há trabalho prescrito para Mim dentro
de todos os três sistemas planetários. Nem sinto falta de
nada, nem tenho necessidade de obter algo – e mesmo assim ocupo-Me
nos deveres prescritos. 23. Pois, se alguma vez Eu deixasse de ocupar-Me
na cuidadosa execução dos deveres prescritos, ó Partha,
todos os homens decerto seguiriam Meu caminho. 24. Se Eu não executasse
os deveres prescritos, todos estes mundos seriam levados à ruína.
Eu causaria a criação de população indesejada,
e com isso Eu destruiria a paz de todos os seres vivos.
Sri Krishna
é o controlador dos controladores e tudo e todos estão sob
Seu controle. Ele é a causa de todas as causas e ninguém
é igual ou superior a Ele. Ele possui opulências plenas e
é a Suprema Deidade adorável. Evidentemente, a Suprema Personalidade
de Deus é transcendental às regras e regulações,
as quais existem unicamente para disciplinar e purificar as almas condicionadas
que dependem dos resultados de seu trabalho e, por isso, se encarregam
de diferentes deveres.
Sendo transcendental, o Senhor não tem o menor interesse em nada
deste mundo e, portanto, não precisa aceitar nenhum dever prescrito.
No entanto, as almas condicionadas precisam de exemplos vivos de grandes
líderes que as ensinem a se comportar de uma maneira exemplar.
Desse modo, por Sua bondade sem limites, o Senhor vem a este mundo e age
unicamente para o benefício das pessoas em geral. Assim, Ele assume
para Si mesmo a responsabilidade de ser a maior autoridade de modo que
as pessoas comuns sigam Seus passos e alcancem a perfeição
da vida. Devemos, no entanto, entender claramente que as regras e regulações
prescritas nas escrituras nunca podem afetá-lO, mas, ainda assim,
para estabelecer os princípios religiosos Ele prefere segui-las
à risca.
Pérola
21. A AÇÃO DO SÁBIO E A AÇÃO
DO IGNORANTE (versos 25 a 35)
25.
Assim como os ignorantes executam seus deveres com apego aos resultados,
os eruditos também podem agir, mas sem apego, com o propósito
de conduzir as pessoas para o caminho correto. 26. Para não perturbar
as mentes dos homens ignorantes apegados aos resultados fruitivos dos
deveres prescritos, o sábio não deve induzi-los a parar
de trabalhar. Ao contrário, trabalhando com espírito de
devoção, ele deve ocupá-los em todas as espécies
de atividades para que pouco a pouco desenvolvam a consciência de
Krishna. 27. Confusa, a alma espiritual que está sob a influência
do ego falso julga-se a autora das atividades que, de fato, são
executadas pelos três modos da natureza material. 28. Quem tem conhecimento
da Verdade Absoluta, ó pessoa de braços poderosos, não
se ocupa a serviço dos sentidos e do gozo dos sentidos, pois conhece
bem as diferenças entre trabalho com devoção e trabalho
em busca de resultados fruitivos. 29. Confundidos pelos modos da natureza
material, os ignorantes ocupam-se plenamente em atividades materiais e
tornam-se apegados. Mas os sábios não devem inquietá-los,
embora estes deveres sejam inferiores por causa da falta de conhecimento
daqueles que os executam. 30. Portanto, ó Arjuna, ofertando-Me
todos os teus trabalhos, com pleno conhecimento de Mim, sem desejos de
lucro, sem alegares ter alguma posse, e livre da letargia, luta. 31. Aqueles
que cumprem seus deveres de acordo com Meus preceitos e que sem inveja
seguem fielmente este ensinamento livram-se do cativeiro das ações
fruitivas. 32.Mas aqueles que, por inveja, rejeitam estes ensinamentos
e não os seguem devem ser considerados desprovidos de todo o conhecimento,
enganados e malogrados em seus esforços pela perfeição.
33. Até mesmo um homem de conhecimento age segundo sua própria
natureza, pois cada qual segue a natureza que adquiriu dos três
modos. Que se pode conseguir com a repressão? 34. Há princípios
que servem para regular o apego e a aversão relacionados com os
sentidos e seus objetos. Ninguém deve ficar sob o controle desse
apego e aversão, porque são obstáculos no caminho
da auto-realização. 35. É muito melhor cumprir os
próprios deveres prescritos, embora com defeito, do que executar
com perfeição os deveres alheios. A destruição
durante o cumprimento do próprio dever é melhor do que ocupar-se
nos deveres alheios, pois seguir o caminho dos outros é perigoso.
Uma vez que
os homens ignorantes não podem aceitar as atividades em consciência
de Krishna, os sábios não devem desperdiçar seu tempo
valioso, perturbando-os desnecessariamente. Sendo bondosos, no entanto,
os devotos do Senhor toleram o mau comportamento dos ignorantes e aproximam-se
deles para tentar ocupá-los apropriadamente.
Movida pelo ego falso, uma pessoa ignorante da sua natureza espiritual
eterna considera-se a causa dos resultados de suas atividades e atribui
o mérito unicamente a si própria. Ela não reconhece
que seu corpo é um simples resultado de suas atividades passadas,
o qual funciona sob a ordem do Senhor. Absorta em consciência material,
a pessoa ignorante esquece-se de sua posição de servo amoroso
do Senhor e dedica-se a servir seus próprios interesses pessoais.
Uma pessoa sábia, no entanto, nunca age visando à sua satisfação
pessoal, mas está sempre ativa no serviço devocional amoroso
e, assim, está sempre ajudando a pessoa ignorante a aperfeiçoar
o seu comportamento. Quando observamos uma pessoa sábia agir, podemos
comprovar que ela é dotada de grande conhecimento espiritual, pois
mostra sua indiferença às exigências mundanas dos
sentidos materiais. Por outro lado, absorto em designações
materiais ilusórias, o ignorante vive preso ao desfrute de seus
sentidos. Portanto, qualquer pessoa que queira se tornar sábia
deve desenvolver conhecimento prático a respeito da existência
eterna da alma. Ela precisa compreender que não é este corpo
material e, sim, uma alma espiritual que tem habitado diferentes corpos
temporários. Isto irá ajudá-la a perceber claramente
que existe uma certa classe de prazeres materiais que é perigosa,
pois produz reações materiais que irão desviá-la
da sua meta espiritual. Desse modo, compreendendo bem a diferença
entre trabalho prático em devoção e trabalho fruitivo,
a pessoa pode exercer controle sobre suas paixões materiais e utilizar
seus sentidos em trabalhos práticos com o único propósito
de se purificar.
Pérola
22. O INIMIGO INSACIÁVEL CHAMADO LUXÚRIA (versos 36 a 46)
36.
Arjuna disse: Ó descendente de Vrishni, que impele alguém
a atos pecaminosos, mesmo contra a sua vontade, como se ele agisse à
força? 37. A Suprema Personalidade de Deus disse: É somente
a luxúria, Arjuna, que nasce do contato com o modo material da
paixão e mais tarde se transforma em ira, e que é o inimigo
pecaminoso que tudo devora neste mundo. 38. Assim como a fumaça
cobre o fogo, o pó cobre um espelho ou um ventre cobre um embrião,
diferentes graus de luxúria cobrem o ser vivo. 39. Assim, a consciência
pura da entidade viva sábia é coberta por seu eterno inimigo
sob a forma de luxúria, que nunca é satisfeita e queima
como o fogo. 40. Os sentidos, a mente e a inteligência são
os lugares que servem de assento para esta luxúria. Através
deles, a luxúria confunde o ser vivo e obscurece o verdadeiro conhecimento
que ele possui. 41. Portanto, ó Arjuna, ó melhor dos Bharatas,
desde o começo, refreia este grande símbolo do pecado (a
luxúria), regulando os sentidos, e aniquila este destruidor do
conhecimento e da auto-realização. 42. Os sentidos funcionais
são superiores à matéria bruta; a mente é
superior aos sentidos; por sua vez, a inteligência é mais
elevada do que a mente; e ela (a alma) é superior à inteligência.
43. Assim, sabendo que é transcendental aos sentidos, à
mente e à inteligência materiais, ó Arjuna de braços
poderosos, a pessoa deve equilibrar a mente por meio de deliberada inteligência
espiritual (consciência de Krishna) e assim – pela força
espiritual – vencer este inimigo insaciável conhecido como
luxúria.
Aqui se explica
que, ao vir ao mundo material, a entidade viva inevitavelmente passa a
interagir com o modo da paixão, o que faz com que seu sentimento
puro de amor por Deus se transforme em luxúria. O amor a Deus é
uma qualidade natural de todo ser vivo puro, e se caracteriza pelo desejo
espontâneo de agir para o prazer do Senhor. Este amor a Deus é
comparado ao leite puro e a luxúria é comparada ao iogurte.
Em outras palavras, assim como o leite em contato com uma substância
ácida se transforma em iogurte, o amor a Deus em contato com a
paixão material se perverte em luxúria, ou o desejo incontrolável
de satisfazer os próprios sentidos materiais. A entidade viva,
portanto, permanece presa a este mundo material unicamente por causa da
luxúria, a qual é comparada ao fogo. Isto significa que,
assim como não podemos apagar o fogo simplesmente jogando combustível
nele, não podemos controlar a nossa luxúria simplesmente
tentando satisfazê-la. A solução dada pelo Senhor
é que a pessoa deve refrear esta propensão luxuriosa, pois
esta austeridade executada por uma pessoa irá gradualmente tornar
a luxúria cada vez mais fraca. Quando a luxúria é
portanto refreada e, ao mesmo tempo, a pessoa se ocupa no serviço
devocional ativo, esta mesma luxúria irá se reespiritualizar
e irá recuperar sua natureza original pura. A grande dificuldade
que o ser vivo corporificado enfrenta é que ele está viciado
em satisfazer os sentidos e confunde o prazer ilusório dos sentidos
com a verdadeira felicidade. Devido ao mau uso do seu livre-arbítrio,
a entidade viva veio a este mundo material exclusivamente para tentar
ser feliz independente de Deus. Passando a habitar um corpo material específico
e recebendo da natureza material um tipo específico de visão,
audição, paladar, etc., bem como uma mente, um intelecto
e um ego materiais, os seres vivos se esquecem de sua natureza espiritual
eterna. Por terem abusado de sua independência parcial, eles caíram
nesta condição ilusória e são forçados
pela influência da luxúria a permanecerem absortos em atividades
de gozo dos sentidos. Esta criação material, no entanto,
é feita pelo Senhor de uma maneira que os seres vivos nunca conseguirão
satisfazer por completo suas propensões de gozo material. Ao contrário
disso, esta constante busca infrutífera de gozo dos sentidos torna-se
a causa da própria frustração do ser vivo, a qual
o levará a indagar sobre sua verdadeira natureza espiritual.
Nos versos anteriores conseguimos compreender como podemos purificar a
nossa própria natureza por aceitar deveres prescritos como um serviço
em sacrifício ao Senhor. Contudo, podemos observar que na prática
nossa natureza frequentemente se perverte e manifesta tendências
pecaminosas. Arjuna, portanto, quer compreender que força é
esta que nos confunde completamente e nos induz a agir contra nosso próprio
interesse. Por esse motivo, o Senhor aqui revela que nosso verdadeiro
inimigo, a luxúria, vive dentro de todos nós, e conclui
que, através da prática da consciência de Krishna,
a qual inclui conhecimento transcendental, a pessoa pode valer-se de sua
força espiritual e gradualmente subjugar este inimigo tão
perigoso.
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