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CAPÍTULO
II: Resumo do Conteúdo do Gita
Pérola
6. ARJUNA É REPREENDIDO POR KRISHNA (versos 1 a 3)
1.
Sañjaya disse: Vendo Arjuna cheio de compaixão, sua mente
deprimida, seus olhos rasos d’água, Madhusudana, Krishna,
disse as seguintes palavras: 2. A Suprema Personalidade de Deus disse:
Meu querido Arjuna, como foi que estas impurezas desenvolveram-se em ti?
Elas não condizem com um homem que conhece o valor da vida. Elas
não conduzem aos planetas superiores, mas à infâmia.
3. Ó filho de Pritha, não cedas a esta impotência
degradante. Isto não te fica bem. Abandona esta mesquinha fraqueza
de coração e levanta-te, ó castigador dos inimigos.
Tal reação
enérgica do Senhor em relação à condição
aflitiva de Arjuna serve como grande exemplo para todos nós. Embora
tivesse recebido treinamento espiritual, Arjuna deixou-se entregar a sentimentos
mundanos. Portanto, o Senhor Krishna mostrou Sua surpresa ao indagar:
“Como estas impurezas se desenvolveram em ti, um ariano, uma pessoa
que conhece o verdadeiro propósito da vida?”
A lição a se aprender com isto é que, caso nossos
desejos pessoais sejam prejudicados, nossa mente pode se tornar uma inimiga
tão traiçoeira que, com imperceptível sutileza, nos
desviará do nosso verdadeiro dharma. Este foi exatamente o caso
de Arjuna, que apresentava argumentos sensatos e inventava boas desculpas
com o propósito de simplesmente esconder seus sentimentos mundanos
de medo e o apego às relações corpóreas.
Esquecidos da nossa identidade espiritual eterna, apegamo-nos excessivamente
ao nosso corpo material e a tudo e todos que estejam ligados a ele. Este
apego faz com que a mente se absorva em raciocínios materiais e
receba a influência constante de falsos conceitos de “eu e
meu”, desviando-nos cada vez mais da verdade.
Ao estudarmos o primeiro capítulo, pudemos entender com bastante
clareza que o temor que tomou conta de Arjuna, por muitos motivos, não
fazia o menor sentido. Como guerreiro, era inaceitável que Arjuna
desistisse de uma luta onde a responsabilidade de proteger o dharma estava
sob seus cuidados, embora ele houvesse argumentado que seu desejo de desistir
da batalha se devia ao profundo respeito ao seu avô Bhisma. Na verdade,
o Senhor Krishna considerou tal argumento como simples fraqueza do coração,
uma falsa idéia de não-violência. Em outras palavras,
toda a lamentação de Arjuna não se justificava, pois,
em última análise, ela se baseava na ignorância acerca
do verdadeiro eu. Suas lágrimas revelavam muito mais sua fraqueza
de coração do que um sinal de verdadeira compaixão
espiritual. Por isso, o Senhor tentou animar Arjuna a abandonar sua impotência
revestida de tal pretensa não-violência e recomendou que
ele se levantasse e participasse energicamente da batalha. Desse modo,
sentindo-se incapacitado de resolver seus próprios problemas, Arjuna
não hesita em pedir ajuda a seu amigo, o Senhor Krishna.
Pérola
7. ARJUNA ACEITA KRISHNA COMO MESTRE ESPIRITUAL (versos 4 a 9)
4.
Arjuna disse: Ó matador dos inimigos, ó matador de Madhu,
como é que na batalha posso contra-atacar com flechas homens como
Bhisma e Drona, que são dignos de minha adoração?
5. É preferível viver mendigando neste mundo que viver à
custa das vidas de grandes almas que são meus mestres. Embora desejem
conquistas terrenas, eles são superiores. Se forem mortos, tudo
o que desfrutarmos estará manchado de sangue. 6. Tampouco sabemos
o que é melhor – vencê-los ou ser vencidos por eles.
Se matássemos os filhos de Dhritarastra, não nos importaríamos
de viver. Contudo, eles agora estão diante de nós no campo
de batalha. 7. Agora estou confuso quanto ao meu dever e perdi toda a
compostura devido à torpe fraqueza. Nesta condição,
estou Te pedindo que me digas com certeza o que é melhor para mim.
Agora sou Teu discípulo e uma alma rendida a Ti. Por favor, instrui-me.
8. Não consigo descobrir um meio de afastar este pesar que está
secando meus sentidos. Não serei capaz de suprimi-lo nem mesmo
que ganhe na Terra um reino próspero e inigualável com soberania
como a dos semideuses nos céus. 9. Sañjaya disse: Tendo
falado essas palavras, Arjuna, o castigador dos inimigos, disse a Krishna,
Govinda, não lutarei, e ficou calado.
Apesar de
ter apresentado anteriormente tantos argumentos baseados no conhecimento
dos princípios religiosos e morais, podemos analisar que Arjuna
foi incapaz de resolver seus problemas sozinho. Esta verdade não
é aplicável simplesmente a Arjuna, mas se aplica a todos
que se encontram neste mundo. Independente do grau elevado de conhecimento
material que a pessoa tenha atingido, continuará sendo impossível
superar as perplexidades da vida sem a ajuda de um mestre espiritual.
Assim como Arjuna, qualquer pessoa desprovida de conhecimento transcendental
comprovará, mais cedo ou mais tarde, que seus esforços pessoais
em tentar resolver seus problemas serão insuficientes. Ela terá
de se submeter ao cultivo do conhecimento transcendental sob a guia de
um mestre espiritual auto-realizado. As perplexidades e situações
problemáticas fazem parte da natureza deste mundo e surgem a todos,
mesmo que ninguém as procure.
Em meio a tantas dificuldades, Arjuna reconheceu sua fraqueza e confusão
mental e assumiu sua incapacidade de cumprir corretamente seus diferentes
deveres. Sua situação era extremamente delicada, pois seu
dever de guerreiro ia contra seus deveres familiares, os quais também
aparentemente contrariavam o desejo do Senhor. Em outras palavras, ao
cumprir corretamente seu dever de guerreiro, ele cometeria ofensas aos
membros de sua família, tais como seus primos, os filhos de Dhritarastra,
e seu querido avô Bhisma. Por outro lado, renunciando a guerra e
cumprindo seus deveres familiares, Arjuna estaria contrariando o desejo
direto de Deus, o Senhor Krishna, que estava pessoalmente a seu lado.
Dessa maneira, Arjuna revelou sua incapacidade de encontrar sozinho uma
solução e recorreu à ajuda de seu amigo, colocando-se
como um discípulo dependente.
Como ficará claro no Capítulo Quatro, o Senhor Krishna desce
à Terra por Sua misericórdia imotivada e executa atividades
como se fosse um ser humano comum, embora nunca deixe de ser a Suprema
Personalidade de Deus. Seu aparecimento neste mundo tem como propósito
principal atrair os diferentes seres vivos que estão esquecidos
de suas identidades espirituais eternas. Desse modo, o Senhor Krishna
cria uma situação na qual o grande devoto Arjuna revela
sua perplexidade e confusão mental e decide pedir instruções
espirituais. Com isto, o Senhor coloca-Se na posição de
mestre espiritual não apenas de Arjuna, mas de todos os afortunados
seres vivos que podem tirar proveito espiritual ilimitado deste conhecimento
imaculado apresentado sob a forma do Bhagavad-gita.
Pérola
8. AS PRIMEIRAS INSTRUÇÕES DO SENHOR (versos 10 a
15) 10.
Ó descendente de Bharata, naquele momento, Krishna, no meio dos
dois exércitos, sorriu e disse as seguintes palavras ao desconsolado
Arjuna. 11. A Suprema Personalidade de Deus disse: Enquanto falas palavras
sábias, estás lamentando aquilo com que não precisas
te afligir. Os sábios não lamentam nem os vivos nem os mortos.
12. Nunca houve um tempo que Eu não existisse, nem tu, nem todos
esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir.
13. Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da
infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando
a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não
fica confusa com essa mudança. 14. Ó Filho de Kunti, o aparecimento
transitório de felicidade e aflição, e seu desaparecimento
no devido tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das
estações de inverno e verão. Surgem da percepção
sensorial, ó descendente de Bharata, e é preciso aprender
a tolerá-los sem perturbar-se. 15. Ó melhor entre os homens
(Arjuna), quem não se deixa perturbar pela felicidade ou aflição
e que permanece estável em ambas as circunstâncias decerto
está qualificado para alcançar a liberação.
O Senhor
Krishna, o mestre espiritual supremo, foi direto ao assunto: “Meu
querido Arjuna, se Me queres como teu mestre espiritual, então
dar-te-ei Minha primeira instrução: torna-te um verdadeiro
sábio e não te lamentes desnecessariamente!” Isto
é extremamente significativo. Lamentação e vida espiritual
definitivamente não combinam. De um modo geral, a lamentação
é um sinal evidente da ignorância acerca do verdadeiro eu.
Pelo controle supremo, as diferentes almas são lançadas
em diferentes corpos, onde terão de existir por um período
específico de tempo. Pelo controle supremo, tais almas terão
de abandonar no momento certo seus respectivos corpos e obterão,
de uma maneira impecavelmente justa, os resultados de suas atividades.
Qual é, então, a necessidade de lamentação?
Como ficará cada vez mais claro durante o estudo desta obra, a
alma é eterna e sempre existente. A morte é um simples conceito
material, relativo apenas ao corpo físico, uma mera cobertura temporária
da alma. Por isto, Arjuna não deveria dar tamanha importância
à condição do corpo material. Isto estava acarretando
um esquecimento acerca do verdadeiro eu, a alma espiritual, resultando
em desnecessária lamentação. Nos dias de hoje, a
civilização humana carece deste conhecimento espiritual
e, como Arjuna, foi mordida pela serpente da lamentação,
cujo veneno se expande em todos os setores da sociedade. Na verdade, a
condição corpórea é lamentável por
ser completamente incompatível com a natureza eterna da alma. Logo
que nasce, o corpo terá de gradualmente atingir as fases de doença,
velhice e morte. Em conclusão, a identificação corpórea
é uma fonte de lamentação que tem como consequência
a intolerância e a instabilidade emocional. No entanto, ao compreender
sua natureza eterna e ao utilizar o corpo material exclusivamente como
um instrumento para a auto-realização espiritual, a pessoa
livra-se das dualidades concernentes à vida material, aprende a
tolerar as adversidades deste mundo e não se perturba diante dos
reveses da vida. Certamente, tal pessoa pode alcançar completa
liberação mesmo estando em contato com o corpo material,
posto que suas atividades corpóreas não mais a afetarão.
Isto significa que, mesmo que o seu corpo aja movido pela reação
às suas atividades passadas, a Suprema Personalidade de Deus passa
a cuidar pessoalmente de tal alma liberada. Por exemplo, mesmo depois
de desligado, o ventilador elétrico continua girando por algum
tempo. No entanto, este giro não se deve à corrente elétrica,
mas à continuação do último movimento. Em
outras palavras, embora uma alma liberada pareça estar agindo tal
qual uma pessoa comum, suas ações não passam de continuação
das atividades passadas.
Pérola
9. A NATUREZA SUPERIOR DA ALMA (versos 16 a 25)
16.
Aqueles que são videntes da verdade concluíram que o não-existente
(o corpo material) não permanece e o eterno (a alma) não
muda. Isto eles concluíram estudando a natureza de ambos. 17. Deves
saber que aquilo que penetra o corpo inteiro é indestrutível.
Ninguém é capaz de destruir a alma imperecível. 18.
O corpo material da entidade viva indestrutível, imensurável
e eterna decerto chegará ao fim; portanto, luta, ó descendente
de Bharata. 19. Nem aquele que pensa que a entidade viva é o matador
nem aquele que pensa que ela é morta estão em conhecimento,
pois o eu não mata nem é morto. 20. Para a alma, em tempo
algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não
passa a existir e nem passará a existir. Ela é não
nascida, eterna, sempre-existente e primordial. Ela não morre quando
o corpo morre. 21. Ó Partha, como pode uma pessoa que sabe que
a alma é indestrutível, eterna, não-nascida e imutável
matar alguém ou fazer com que outrem mate? 22. Assim como alguém
veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos
materiais, abandonando os velhos e inúteis. 23. A alma nunca pode
ser despedaçada por arma alguma, tampouco pode ser queimada pelo
fogo, umedecida pela água ou enxugada pelo vento. 24. Essa alma
individual é inquebrável e indissolúvel, e não
pode ser queimada nem seca. Ela é permanente, está presente
em toda parte, é imutável, imóvel e eternamente a
mesma. 25. Diz-se que a alma é invisível, inconcebível
e imutável. Sabendo disto, não te deves afligir por causa
do corpo.
Nestes versos,
encontramos explicações claras da verdadeira natureza da
alma como algo diferente do corpo. O corpo material, por exemplo, vive
em constante transformação através das ações
e reações das diferentes células, produzindo o crescimento
e a velhice. A alma, no entanto, sendo uma centelha espiritual minúscula,
permanece imutável, sem se submeter às mudanças que
ocorrem no corpo. Portanto, este corpo material é simplesmente
a corporificação da alma, a qual se espalha por todo o corpo
e pode ser percebida como consciência individual. Por natureza,
o corpo material é perecível, mas a alma é eterna.
Ela é descrita nos Vedas como sendo do tamanho de uma décima
milésima parte da porção superior da ponta de um
fio de cabelo. Em outras palavras, ela é tão pequena que
nem sequer pode-se medir sua dimensão. Ainda assim, apesar de diminuta,
ela é autoluminosa, sendo parte da luz suprema. É esta partícula
de luz espiritual que mantém o corpo, pois quando ela parte, imediatamente
começa a decomposição do corpo. O que se chama de
morte, portanto, nada mais é do que o fenômeno que ocorre
quando a alma abandona o corpo que não apresenta mais condições
apropriadas para sua permanência. O corpo está frequentemente
sujeito a seis diferentes transformações: ele nasce do ventre
do corpo da mãe, permanece por algum tempo, cresce, produz subprodutos,
definha gradualmente e cai no esquecimento. A alma, porém, não
passa por tais mudanças. Ela não nasce, mas, por ser lançada
no ventre materno, acaba aceitando a cobertura de um determinado corpo
e faz com que, sob sua influência, o corpo nasça e se desenvolva.
Por observação, podemos comprovar que tudo o que nasce também
morre. No entanto, por que não tem nascimento, a alma não
tem passado, presente ou futuro – ela é sempre-existente
e primordial. A alma nunca é afetada pelas mudanças do corpo
e tampouco ela produz algum subproduto. O que chamamos de filhos são
simplesmente os subprodutos do corpo, os quais possuem diferentes almas
individuais. O corpo só se desenvolve por causa da presença
da alma, mas ela permanece livre de qualquer alteração.
Estando localizada no coração da entidade viva, a alma simplesmente
atua como fonte de energia para que o corpo possa executar suas funções.
Às vezes, devido às nuvens no céu, não podemos
ver o Sol no céu, mas quando existe claridade podemos ter a completa
convicção de que é dia e que o Sol ainda está
presente. Da mesma forma, mesmo que não se consiga encontrar a
alma dentro do coração, ainda assim, se um corpo apresenta
consciência isto indica a presença da alma dentro deste corpo.
Do mesmo modo, quando o corpo perde completamente sua consciência,
isso é uma evidência concreta que a alma foi transferida
para outro corpo. Esta transferência torna-se possível unicamente
pela presença transcendental da manifestação do Senhor
conhecida como Superalma, a qual também reside dentro de todos
os corpos. Segundo este exemplo, os Vedas comparam este corpo a uma árvore
onde estão pousados dois pássaros: a alma individual e a
Superalma. Um pássaro, a alma individual, executa todo tipo de
atividades mundanas e, na tentativa de desfrutar dos frutos desta árvore,
vive mergulhado em constante ansiedade e melancolia. A Superalma, por
Sua vez, mantém-Se à parte e, como um pássaro amigo,
simplesmente testemunha e aguarda o momento em que a alma individual irá
se voltar para Ele. Neste momento, o pássaro aflito, concordando
em aceitar Suas instruções divinas, se livrará de
toda ansiedade. Mas, enquanto isto não acontecer, a alma terá
de se contentar em trocar de corpo material, assim como uma pessoa tem
de substituir suas roupas inúteis e velhas por vestes mais novas.
Através dessas instruções transcendentais, o Senhor
Krishna queria livrar seu amigo Arjuna de qualquer tipo de lamentação.
Com certeza, Arjuna estava preocupado com a morte de seu avô Bhisma
e de seu mestre Drona, no entanto, segundo o Senhor, Arjuna deveria sentir-se
feliz de saber que eles seriam promovidos para uma situação
de vida superior. Suas almas não seriam absolutamente alteradas,
pois qualquer tipo de arma – seja ela espada, arma incandescente,
arma pluvial, etc. – seria incapaz de ferir a alma de seus entes
queridos que, como partículas atômicas do Espírito
Supremo, sempre permaneceriam o mesmo átomo imutável. Portanto,
como ficará ainda mais claro nos próximos versos, a lamentação
de Arjuna não se justificava nem material, nem espiritualmente.
Pérola
10. NÃO HÁ RAZÃO PARA SE LAMENTAR (versos
26 a 30)
26.
Se, no entanto, pensas que a alma sempre nasce e morre para sempre, mesmo
assim, não tens razão para lamentar, ó pessoa de
braços poderosos. 27. Alguém que nasceu com certeza morrerá,
e após a morte ele voltará a nascer. Portanto, no inevitável
cumprimento do dever, não deves te lamentar. 28. Todos os seres
criados são imanifestos no seu começo, manifestos no seu
estado intermediário, e de novo imanifestos quando aniquilados.
Então, qual a necessidade de lamentação? 29. Alguns
consideram a alma espantosa, outros descrevem-na como espantosa, e alguns
ouvem dizer que ela é espantosa, enquanto outros, mesmo após
ouvir sobre ela, não podem absolutamente compreendê-la. 30.
Ó descendente de Bharata, aquele que mora no corpo nunca pode ser
morto. Portanto, não precisas afligir-te por nenhum ser vivo.
Estes versos
são especialmente destinados às pessoas que acreditam que
este corpo não passa de uma mera combinação de elementos
químicos e que a vida se desenvolve através da simples interação
desses elementos químicos. Para tais pessoas, que não acreditam
na existência da alma, ainda assim não existe motivo para
lamentação, pois ninguém deve se lamentar pela simples
perda de meras substâncias químicas. Além disso, a
batalha tornara-se inevitável e, como ficará cada vez mais
claro, em certas circunstâncias a violência e a guerra são
fatores essenciais para se manter uma situação pacífica
na sociedade humana. Na verdade, esta Batalha de Kurukshetra era um desejo
do próprio Senhor e, como um kshatriya, Arjuna deveria lutar por
esta causa suprema sem cair em lamentação. As atividades
que a pessoa executa numa vida irão determinar seu próximo
nascimento, pois, dessa maneira, todos passam por consecutivos ciclos
de nascimentos e mortes. Isso significa que, mesmo que evitasse a guerra
contra seus parentes, Arjuna não seria capaz de deter a morte deles.
Tal lamentação era infundada e levaria Arjuna à degradação
por escolher a maneira errada de agir. O Bhagavad-gita revela-nos o conhecimento
essencial para a auto-realização espiritual, dando-nos como
base a não-existência do corpo material. No entanto, é
muito difícil encontrar alguém que esteja verdadeiramente
inclinado a entender esta ciência da alma diretamente da boca de
lótus do Senhor. Deixando-se levar por diferentes teorias desautorizadas,
as pessoas podem facilmente se desorientar e concluir erroneamente que
a alma individual e a Alma Suprema são unas em todos os aspectos.
De qualquer maneira, aceitando ou não a existência da alma
ou mesmo acreditando na unidade entre a alma atômica e a Superalma,
a lamentação pela perda do corpo material não faz
o menor sentido.
Pérola
11. OS DEVERES DE UM GUERREIRO (versos 31 a 38)
31.
Considerando teu dever específico de kshatriya, deves saber que
não há melhor ocupação para ti do que lutar
conforme determinam os princípios religiosos; e assim não
há necessidade de hesitação. 32. Ó Partha,
felizes são os kshatriyas a quem aparece essa oportunidade de lutar,
abrindo-lhes as portas dos planetas celestiais. 33. Se, contudo, não
executares teu dever religioso e não lutares, então na certa
incorrerás em pecados por negligenciar teus deveres e assim perderás
tua reputação de lutador. 34. As pessoas sempre falarão
de tua infâmia, e para alguém respeitável, a desonra
é pior do que a morte. 35. Os grandes generais que têm na
mais alta estima o teu nome e fama pensarão que deixaste o campo
de batalha simplesmente porque estavas com medo, e portanto te considerarão
insignificante. 36. Teus inimigos te descreverão com muitas palavras
indelicadas e desdenharão tua habilidade. Que poderia ser mais
doloroso para ti? 37. Ó filho de Kunti, ou serás morto no
campo de batalha e alcançarás os planetas celestiais, ou
conquistarás e gozarás o reino terrestre. Portanto, levanta-te
com determinação e luta. 38. Luta pelo simples fato de lutar,
sem levar em consideração felicidade ou aflição,
perda ou ganho, vitória ou derrota – e adotando este procedimento
nunca incorrerás em pecado.
Ao matar
indivíduos que estão atuando como inimigos dos princípios
religiosos, o kshatriya não está absolutamente incorrendo
em violência. Na verdade, a atitude enérgica por parte do
kshatriya contra os agressores dos princípios religiosos não
deve ser interpretada como violência, assim como não existe
a menor violência quando se usa um espinho para ajudar a arrancar
o outro espinho que esteja fincado em alguma parte do corpo. Desse modo,
o argumento de Arjuna de que esta luta iria proporcionar a ele uma residência
permanente no inferno não fazia o menor sentido, pois, a palavra
composta kshatriya (kshat - lesado, trayate - dar proteção)
é dada às pessoas que se propõem a proteger os cidadãos.
Arjuna havia sido treinado como um verdadeiro kshatriya e teve de se submeter
a severos treinamentos como entrar na floresta e desafiar animais selvagens
munido unicamente de uma espada. Este treinamento se faz necessário
porque às vezes a violência pode ser útil para dar
proteção à vida religiosa. Por isso, o Senhor Krishna
diz para Arjuna que esta luta abriria as portas dos planetas celestiais
superiores. Se ele vencesse, desfrutaria do reino terrestre em nome da
religião e, se fosse derrotado, elevar-se-ia aos planetas celestiais.
Arjuna era muito famoso, pois havia vencido inclusive alguns semideuses
na batalha. Seu próprio mestre, Dronacharya, havia presenteado
Arjuna com uma arma especial. Esta arma era tão poderosa que, com
ela, Arjuna poderia inclusive matar Drona. De modo que, se ele fugisse
da batalha, todos iriam considerá-lo um covarde e, assim, perderia
fama e reputação. Como um amigo e mestre, o Senhor Krishna
o alertou quanto a isto e o aconselhou a permanecer na batalha, mesmo
que tivesse de enfrentar a morte. No cumprimento dos deveres religiosos,
Arjuna não deveria levar em consideração se o resultado
imediato apareceria na forma de felicidade ou aflição, vitória
ou derrota, etc. Sendo transcendentais, as atividades religiosas da consciência
de Krishna estão acima da dualidade material. Depois de explicar
a verdadeira natureza da alma e, ao mesmo tempo, deixar claro que a proposta
de Arjuna de não lutar era irreligiosa e baseava-se simplesmente
no gozo dos sentidos, o Senhor começará agora a ensinar
o processo espiritual chamado buddhi-yoga, na qual se passa a agir com
inteligência transcendental.
Pérola
12. A YOGA DA INTELIGÊNCIA (versos 39 a 41)
39.
Até aqui, descrevi-te este conhecimento através do estudo
analítico. Agora ouve enquanto Eu o explico em termos do trabalho
sem resultados fruitivos. Ó filho de Pritha, quando ages com esse
conhecimento, podes libertar-te do cativeiro decorrente das ações.
40. Neste esforço, não há perda nem diminuição,
e um pequeno progresso neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso
tipo de medo. 41. Aqueles que estão neste caminho são resolutos,
e têm apenas um objetivo. Ó amado filho dos Kurus, a inteligência
daqueles que são irresolutos tem muitas ramificações.
Até
então, o Senhor Krishna havia explicado o sistema de sankhya-yoga,
ou seja, a diferença analítica entre o corpo material e
a alma espiritual. Isto, no entanto, não consistia em instruções
práticas de como agir na plataforma espiritual. Para praticar tal
sistema de yoga, Arjuna teria de compreender a individualidade das diferentes
almas que estavam naquele campo de batalha e teria de vê-las como
indivíduos eternos, os quais estavam sujeitos às várias
mudanças das roupas corpóreas. Porém, o simples fato
de compreender a diferença entre corpo e alma não seria
suficiente para resolver os problemas de Arjuna. Ele teria de aprender
a agir neste mundo sem se afetar pelas reações materiais.
Por isso, o Senhor passará agora a descrever buddhi-yoga, a qualidade
superior de trabalho quando, com inteligência purificada, passa-se
a atuar em liberdade sem se envolver com as reações do trabalho.
O Senhor estava pessoalmente presente no campo sagrado de Kurukshetra
e pessoalmente desejava a batalha para que todos fossem beneficiados e
elevados a uma posição superior. Desse modo, satisfazendo
os desejos do Senhor, todos estariam praticando serviço devocional,
mesmo abandonando seus respectivos corpos no campo de batalha. Isso daria
a todos os guerreiros um resultado espiritual excelente, o qual nunca
estaria perdido. Diferentemente das atividades materiais, cujos resultados
são perdidos com a destruição do corpo material,
aqui o Senhor afirma que as atividades espirituais produzem resultados
permanentes. “Não há perda, nem diminuição”,
diz o Senhor, o que significa que nosso avanço espiritual é
transferido para nossas próximas vidas e esta é a vantagem
de executar atividades em consciência de Krishna.
Pérola
13. AS PALAVRAS FLORIDAS DOS VEDAS (versos 42 a 46)
42-43.
Os homens de pouco conhecimento estão muitíssimo apegados
às palavras floridas dos Vedas, que recomendam várias atividades
fruitivas àqueles que desejam elevar-se aos planetas celestiais,
com o consequente bom nascimento, poder e assim por diante. Por estarem
ávidos de gozo dos sentidos e vida opulenta, eles dizem que isto
é tudo o que existe. 44. Nas mentes daqueles que estão muito
apegados ao gozo dos sentidos e à opulência material, e que
se deixam confundir por estas coisas, não ocorre a determinação
resoluta de prestar serviço devocional ao Senhor Supremo. 45. Os
Vedas tratam principalmente do tema três modos da natureza material.
Ó Arjuna, torna-te transcendental a esses três modos. Liberta-te
de todas as dualidades e de todos os anseios advindos da busca de ganho
e segurança e estabelece-te no eu. 46. Todos os propósitos
satisfeitos por um poço pequeno podem imediatamente ser satisfeitos
por um grande reservatório de água. De modo semelhante,
pode servir-se de todos os propósitos dos Vedas quem conhece o
seu propósito subjacente.
As pessoas
em geral têm grande dificuldade em compreender e adotar diretamente
as atividades espirituais da consciência de Krishna. Devido à
sua forte determinação em satisfazer os sentidos, tais pessoas
materialmente motivadas preferem adotar atividades religiosas mundanas,
onde as propostas de gozo dos sentidos e opulência material são
enfatizadas. Mal sabem elas que qualquer atividade material, quer seja
religiosa ou não, irá envolvê-las em reações
nos três modos da natureza, e causará cativeiro permanente
neste mundo. Para tais pessoas menos inteligentes, os Vedas oferecem as
seções karma-kanda para, aos poucos, elevá-las do
campo grosseiro do gozo do sentidos a uma posição no plano
transcendental. Arjuna, no entanto, como aluno e amigo direto do Senhor,
deveria transcender a todas as propostas de prazeres materiais temporários
e se situar além das dualidades pertinentes à vida material.
Portanto, atinge a prática de buddhi-yoga quem é bastante
inteligente para compreender o verdadeiro propósito dos Vedas sem
se apegar meramente aos rituais e sem visar simplesmente a uma melhor
qualidade de gozo dos sentidos.
Pérola
14. LIBERTANDO-SE DAS ATIVIDADES FRUITIVAS (versos 47 a 53)
47.
Tens o direito de executar teu dever prescrito, mas não podes exigir
os frutos da ação. Jamais te consideres a causa dos resultados
de tuas atividades, e jamais te apegues ao não-cumprimento do teu
dever. 48. Desempenha teu dever com equilíbrio, ó Arjuna,
abandonando todo o apego a sucesso ou fracasso. Essa equanimidade chama-se
yoga. 49. Ó Dhanañjaya, através do serviço
devocional, mantém todas as atividades abomináveis bem distantes,
e com esta consciência, rende-te ao Senhor. Aqueles que querem gozar
o fruto de seu trabalho são mesquinhos. 50. Um homem ocupado em
serviço devocional livra-se tanto das boas quanto das más
ações, mesmo nesta vida. Portanto, empenha-te na yoga, que
é a arte de todo o trabalho. 51. Ocupando-se nesse serviço
devocional ao Senhor, grandes sábios ou devotos livram-se dos resultados
do trabalho no mundo material. Desse modo, eles transcendem ao ciclo de
nascimentos e mortes e passam a viver além de todas as misérias.
52. Quando tua inteligência tiver cruzado a densa floresta da ilusão,
tornar-te-ás indiferente a tudo o que se ouviu e a tudo o que se
há de ouvir. 53. Quando tua mente deixar de perturbar-se pela linguagem
florida dos Vedas, e quando se fixar no transe da auto-realização,
então terás atingido a consciência divina.
O Bhagavad-gita
nos ensina que todos são forçados pela natureza material
a agir de acordo com suas próprias tendências. Desse modo,
todos devem aceitar um treinamento para aprender a fazer um bom uso de
sua natureza específica. Tal natureza é como uma bagagem
trazida de outras vidas, da qual não podemos nos livrar facilmente.
Ela é o resultado das atividades piedosas e pecaminosas acumuladas
em muitas vidas prévias. Portanto, dentro de uma sociedade centralizada
em Deus, todos são treinados a adotar deveres prescritos naturais
e, assim, utilizar sua natureza para propósitos espirituais.
Na vida material, todos estão visando à sua própria
satisfação e, como resultado disso, permanecem constantemente
sujeitos às reações materiais. Na vida espiritual,
no entanto, a dedicação está sempre voltada à
satisfação do Senhor, e, como resultado natural, os deveres
prescritos são desempenhados com estabilidade e equilíbrio,
e livram gradualmente a pessoa de resultados indesejáveis. Isto
porque, ao compreender sua posição constitucional como parte
integrante do Senhor, a pessoa aprende a abandonar suas atividades materialmente
motivadas, e, mediante um simples ajuste espiritual, transforma-as em
ocupações verdadeiramente transcendentais.
Devido à influência de maya, a energia ilusória do
Senhor, as pessoas não conseguem perceber que este mundo material
é um lugar onde existe perigo a cada passo. Os verdadeiros yogis,
portanto, são devotados ao Senhor e refugiam-se nEle, ocupando-se
no Seu serviço devocional amoroso. Portanto, quando o yogi compreende
que as atividades fruitivas materiais, religiosas ou não, nunca
poderão livrá-lo por completo das ansiedades materiais,
ele se torna realmente perfeito e atinge o transe, fixando-se na auto-realização
espiritual. Desse modo, ele abandona todas as outras ocupações
inferiores e passa a se ocupar exclusivamente no serviço devocional
ao Senhor, sem interesses materiais. Portanto, sua vida se torna um sucesso
completo, independente da situação social em que ele se
encontra. Quer posicionado como um chefe de família ou um renunciado,
quer seja rico ou pobre, nada disso importa, pois ele sempre utiliza sua
energia ou bens materiais em prol da satisfação do seu Senhor
adorável – e esta é a arte perfeita de todos os trabalhos.
Ele não precisa se preocupar com a execução de austeridades
severas ou complicados rituais védicos. De fato, caso tenha alcançado
a compreensão espiritual correta e tenha desenvolvido interesse
espontâneo em servir ao Senhor com verdadeira devoção
pura, tal yogi estará situado numa condição perfeita,
além de qualquer regra ou regulação contida nos próprios
Vedas.
Pérolas
15. SINTOMAS DE UM TRANSCENDENTALISTA (versos 54 a 59)
54.
Arjuna disse: Ó Krishna, quais são os sintomas daquele cuja
consciência está absorta nessa transcendência? Como
fala, e qual é sua linguagem? Como se senta e como caminha? 55.
A Suprema Personalidade de Deus disse: Ó Partha, quando alguém
desiste de todas as variedades de desejo de gozo dos sentidos, que surgem
da invenção mental, e quando sua mente, assim purificada,
encontra satisfação apenas no eu, então se diz que
ele está em consciência transcendental pura. 56. Quem não
deixa a mente se perturbar mesmo em meio às três classes
de misérias, nem exulta quando há felicidade, e que está
livre do apego, medo e ira, é chamado um sábio de mente
estável. 57. No mundo material, quem não se deixa afetar
pelo bem ou mal a que está sujeito a obter, sem louvá-los
nem desprezá-los, está firmemente fixo em conhecimento perfeito.
58. Aquele que é capaz de retirar seus sentidos dos objetos dos
sentidos, assim como a tartaruga recolhe seus membros para dentro da carapaça,
está firmemente fixo em consciência perfeita. 59. A alma
corporificada pode restringir-se do gozo dos sentidos, embora permaneça
o gosto pelos objetos dos sentidos. Porém, interrompendo tais ocupações
ao experimentar um gosto superior, ela se fixa em consciência.
Atinge a
plataforma transcendental a pessoa que, além de ser capaz de distinguir
entre os desejos materiais e espirituais, adquire força suficiente
para não se deixar arrastar pelos impulsos dos sentidos materiais.
Para isso, ela necessita ocupar-se em serviço devocional sem hesitação
– isso irá mantê-la sempre feliz em sua posição
natural eterna. Nesta sublime posição, tal pessoa nunca
se perturba pelas dualidades materiais. Quando as dificuldades surgem,
ela as aceita de bom grado. Ela admite que, devido aos seus maus feitos
passados, seria merecedora de mais dificuldades. Ao mesmo tempo, quando
está feliz, continua vendo tudo como misericórdia do Senhor,
pois ela sempre se considera um servo que depende exclusivamente da Sua
graça.
O mundo material é o mundo da dualidade. No entanto, ao se fixar
em conhecimento, a pessoa passa a se interessar unicamente no Senhor,
o Bem Absoluto, e nunca se afeta pela situação material,
a qual é temporária e ilusória. Esta consciência
espiritual faz com que tal pessoa tenha controle sobre seus sentidos,
utilizando-os exclusivamente a serviço do Senhor. A ocupação
espiritual dos sentidos resulta em experiências transcendentais,
as quais oferecem prazeres espirituais muito superiores. Tal experiência
de um prazer superior coloca tal pessoa numa posição extremamente
segura e imperturbável. A consciência de Krishna é,
portanto, tão maravilhosa que faz com que o gozo material dos sentidos
se torne automaticamente desagradável.
Na plataforma material, as misérias são divididas em três
categorias: as misérias causadas pelo próprio corpo ou mente
materiais; as misérias causadas pelas perturbações
impostas por outras entidades vivas; e as misérias causadas pelos
fenômenos naturais, tais como calor ou frio excessivo, etc. No entanto,
a pessoa transcendental não permite que tais manifestações
materiais miseráveis interfiram em sua vida espiritual. Isto é
possível pelo simples fato de que a pessoa transcendental não
possui apego, ou seja, não vive em função de obter
diferentes parafernálias ou condições adequadas para
o gozo dos seus sentidos. Dedicada a servir ao Senhor, uma pessoa transcendental
está muito além da plataforma sensual e sua vida está
em permanente bem-aventurança, independente dos sucessos ou fracassos
materiais, os quais são inevitáveis neste mundo. Em outras
palavras, em vez de desperdiçar seu tempo com inúteis tentativas
de evitar as misérias materiais ou com esforços constantes
por obter o improvável sucesso material, uma pessoa transcendental
é perfeitamente inteligente, pois utiliza seu precioso tempo unicamente
em consciência de Krishna, permanecendo sempre indesviavelmente
fixo em sua determinação espiritual. Ao mesmo tempo, tal
pessoa está sempre atenta às condições externas
que possam afetar sua consciência espiritual. Por isso, ela é
comparada à tartaruga que, ao perceber qualquer perigo à
sua volta, recolhe seus membros dentro da carapaça. Com esta analogia,
o Senhor Krishna está nos indicando que devemos utilizar nossos
sentidos unicamente em atividades transcendentais e, caso isto não
seja possível, é melhor recolhê-los e novamente manifestá-los
onde existam condições espirituais favoráveis.
Pérola
16. O CONTROLE DOS SENTIDOS (versos 60 a 72)
60.
Os sentidos são tão fortes e impetuosos, ó Arjuna,
que arrebatam à força mesmo a mente de um homem de discriminação
que se esforça por controlá-los. 61. Aquele que restringe
os sentidos, mantendo-os sob completo controle, e fixa sua consciência
em Mim, é conhecido como homem de inteligência estável.
62. Enquanto contempla os objetos dos sentidos, a pessoa desenvolve apego
a eles, e de tal apego se desenvolve a luxúria, e da luxúria
surge a ira. 63. Da ira, surge completa ilusão, e da ilusão,
a confusão da memória. Quando a memória está
confusa, perde-se a inteligência, e ao perder a inteligência,
cai-se de novo no poço material. 64. Mas quem está livre
de todo o apego e aversão e é capaz de controlar seus sentidos
através dos princípios reguladores com os quais se obtém
a liberdade, pode receber a completa misericórdia do Senhor. 65.
Para alguém que sente essa alegria, as três classes de misérias
da existência material deixam de existir; nessa consciência
jubilosa, a inteligência logo torna-se resoluta. 66. Quem não
está vinculado ao Supremo não pode ter inteligência
transcendental nem mente estável, sem as quais não há
possibilidade de paz. E como pode haver alguma felicidade sem paz? 67.
Assim como um vento forte arrasta um barco na água, mesmo um só
dos sentidos errantes em que a mente se detenha pode arrebatar a inteligência
de um homem. 68. Portanto, ó pessoa de braços poderosos,
o indivíduo cujos sentidos são restringidos de seus objetos
com certeza tem a inteligência estável. 69. Aquilo que é
noite para todos os seres é a hora de despertar para o autocontrolado;
e a hora de despertar para todos os seres é noite para o sábio
introspectivo. 70. Só quem não se perturba com o incessante
fluxo de desejos – que são como rios que entram no oceano,
que está sempre sendo enchido mas nunca se agita – pode alcançar
a paz, e não o homem que luta para satisfazer esses desejos. 71.
Aquele que abandonou todos os desejos de gozo dos sentidos, que vive livre
de desejos, que abandonou todo o sentimento de propriedade e não
tem ego falso – só ele pode conseguir a paz verdadeira. 72.
Este é o caminho da vida espiritual e piedosa, e o homem que a
alcança não se confunde. Se, mesmo somente à hora
da morte, ele atinge essa posição, pode entrar no reino
de Deus.
Tanto nas
escrituras védicas, quanto em outras escrituras do mundo, existem
muitas histórias narrando a vida de grandes personalidades, yogis,
sábios ou diferentes classes de espiritualistas, que fracassaram
no intento de controlar seus sentidos. E agora, o motivo deste fracasso
é explicado aqui pelo Senhor Krishna. Os sentidos são fortes
e impetuosos e eles têm o poder de arrastar a mente de qualquer
um – especialmente no que diz respeito ao impulso sexual. Deve-se
entender, portanto, que sem uma ocupação constante nas atividades
da consciência de Krishna é absolutamente impossível
controlar os sentidos. Isto porque os sentidos exigem ocupações
práticas, e se não estiverem ocupados em serviço
devocional ao Senhor, certamente se ocuparão em atividades para
desfrute material.
A verdade é que, enquanto habita um corpo material, a alma espiritual
está numa condição bastante difícil, vivendo
numa atmosfera plena de encantos criados pela energia ilusória.
Os objetos dos sentidos materiais estão sempre tentando atrair
os sentidos do ser corporificado. A situação do ser corporificado
pode ser comparada a um submarino nas profundezas do oceano. O submarino
tem de estar hermeticamente fechado, pois, caso haja um mínimo
orifício, por menor que seja, o submarino afundará gradualmente.
Do mesmo modo, vivendo nas profundezas deste oceano de ilusão material,
os seres corporificados precisam ter o cuidado constante de fechar seus
sentidos e não permitir que a energia ilusória penetre por
eles e afunde sua consciência. Mas isto não significa que
uma pessoa consciente de Krishna tenta evitar os objetos dos sentidos
artificialmente, simplesmente negando-os ou reprimindo seus sentidos.
Ela é inteligente o bastante para compreender que o segredo do
controle dos sentidos é a arte de utilizar tudo no serviço
ao Senhor, o que para ela é bastante natural, devido ao desenvolvimento
de sua devoção. Portanto, ela nunca se torna vítima
da consciência materialista e nunca cai na ilusão de julgar-se
proprietário, controlador ou desfrutador da energia material.
Ao vincular ao Senhor todas as suas ocupações, a pessoa
estabiliza sua inteligência e apazigua sua mente e sentidos. Perdendo
o interesse por atividades mundanas, tal pessoa vive desperta para atividades
transcendentais e sente grande prazer no avanço espiritual. Ela
não tem necessidade de nada, pois o Senhor está sempre presente
em sua mente e coração. Mesmo que, de algum modo, surjam
desejos em sua mente, ela consegue manter-se imperturbável, devido
à misericórdia do Senhor que recompensa o esforço
de seu servo que tão sinceramente se ocupa em Seu serviço.
Seu único desejo é tornar-se cada vez mais consciente de
Krishna e esta fase perfeita é considerada a verdadeira ausência
de desejos. Situada assim, tal pessoa nunca se esquece de que o Senhor
é o único proprietário e que, portanto, tudo deve
ser utilizado em Seu serviço amoroso. A entidade viva não
pode existir sem desejos, nem pode existir sem sentimentos ou atividades.
Portanto, estar sem desejos significa que não se reivindica falsamente
a propriedade de algo. Este é o princípio básico
e essencial para se alcançar a plataforma de verdadeira paz interior.
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