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CAPÍTULO
XI: A Forma Universal
Pérolas
57. ARJUNA DESEJA VER A FORMA UNIVERSAL (versos 1 a 4)
1.
Arjuna disse: pelo fato de eu ter ouvido as instruções sobre
estes assuntos espirituais muito confidenciais que gentilmente me transmitiste,
minha ilusão acaba de ser dirimida. 2. Ó pessoa de olhos
de lótus, eu ouvi enquanto falavas pormenorizadamente sobre o aparecimento
e o desaparecimento de todas as entidades vivas e passei a entender Tuas
glórias inexauríveis. 3. Ó maior de todas as personalidades,
ó forma suprema, embora estejas diante de mim em Tua posição
verdadeira, como Tu mesmo Te descreveste, desejo ver como entraste nesta
manifestação cósmica. Quero ver esta Tua forma. 4.
Se achas que sou capaz de contemplar Tua forma cósmica, ó
meu Senhor, ó mestre de todo o poder místico, então,
mostra-me por favor este ilimitado Eu universal.
Aqui, a importância
de receber instruções espirituais da fonte certa é
mais uma vez assinalada. Arjuna afirma que depois de ouvir no capítulo
anterior o Senhor Krishna pessoalmente revelar Suas manifestações
esplendorosas, ele se viu livre da ilusão. Isto significa que Arjuna
pôde compreender que o Senhor Krishna, o qual estava misericordiosamente
na sua frente, não era um simples amigo ou um ser humano comum.
Em outras palavras, Arjuna compreendeu que o Senhor Krishna é a
Suprema Personalidade de Deus, a última palavra em conhecimento
espiritual. No entanto, apesar de Arjuna ter alcançado esse estágio
perfectivo, Arjuna pede para que o Senhor Krishna mostre Sua forma universal
para que não só ele, mas todos possam aceitá-lo.
Arjuna está inspirado com as instruções e declarações
confidenciais feitas pelo Senhor e pede para ver a forma universal do
Senhor por que está querendo deixar claro para qualquer pessoa,
mesmo no futuro, que o Senhor Krishna não é uma pessoa comum.
Arjuna pessoalmente não precisava de nenhuma confirmação
da posição transcendental do Senhor. Ele manifestou o desejo
de ver a forma universal porque estava prevendo que no futuro surgiriam
muitos impostores que se fariam passar por encarnações de
Deus. Assim, Arjuna estabeleceu que o critério para se aceitar
uma pessoa que alegue ser uma encarnação de Deus é
pedir que ele revele sua forma universal. Caso ele não seja capaz
de revelá-la, deve-se compreender que se trata de um impostor.
Arjuna também admitia suas limitações como entidade
viva e reconhecia que, com seus sentidos materiais, não seria possível
ter acesso à grandeza de Krishna. Portanto, com bastante humildade,
Arjuna pede a Yogesvara, o Senhor de todo o poder místico, que,
se assim Ele concordar, revele Sua forma universal ilimitada.
Pérola
58. ARJUNA OBTÉM VISÃO DIVINA (versos 5 a 14)
5.
A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, ó filho
de Pritha, vê então Minhas opulências, constituídas
de centenas de milhares de variadas formas divinas e multicoloridas. 6.
Ó melhor dos Bharatas, vê aqui as diferentes manifestações
dos Adityas, Vasus, Rudras, Asvini-kumaras e todos os outros semideuses.
Contempla as muitas coisas maravilhosas que ninguém jamais viu
nem ouviu. 7. Ó Arjuna, tudo o que quiseres ver, contempla imediatamente
neste Meu corpo! Esta forma universal pode mostrar-te tudo o que agora
desejes ver e tudo o que queiras ver no futuro. Todas as coisas –
móveis e inertes – estão aqui completamente, num só
lugar. 8. Mas não Me podes ver com teus olhos atuais. Por isso,
Eu te dou olhos divinos. Observa Minha opulência mística!
9. Sañjaya disse; Ó rei, tendo falado essas palavras, o
Supremo Senhor de todo o poder místico, a Personalidade de Deus,
mostrou a Arjuna a forma universal. 10-11. Arjuna viu naquela forma universal
bocas ilimitadas, olhos ilimitados e maravilhosas visões ilimitadas.
A forma estava decorada com muitos ornamentos celestiais e portava em
riste muitas armas divinas. Ele usava guirlandas e roupas celestiais,
e muitas essências divinas untavam o Seu corpo. Tudo era maravilhoso,
brilhante, ilimitado e não parava de expandir-se. 12. Se centenas
de milhares de sóis nascessem ao mesmo tempo no céu, talvez
seu resplendor pudesse assemelhar-se à refulgência dessa
forma universal da Pessoa Suprema. 13. Nesse momento, Arjuna pôde
ver na forma universal do Senhor as expansões ilimitadas do Universo
situadas em um só lugar, embora tenham sofrido muitos e muitos
milhares de divisões. 14. Então, perplexo e atônito,
com os pêlos arrepiados, Arjuna inclinou a cabeça para oferecer
reverências e, de mãos postas, começou a orar ao Senhor
Supremo.
Como um devoto
puro do Senhor, Arjuna estava completamente satisfeito em se relacionar
diretamente com a forma pessoal do Senhor, o seu amigo Sri Krishna. Ele
queria que o Senhor mostrasse Sua forma universal unicamente para o benefício
dos não-devotos. Os materialistas não-devotos precisam contemplar
uma exibição de opulências por parte do Senhor para,
assim, se tornarem atraídos. O devoto, no entanto, já estabeleceu
um relacionamento amoroso com o Senhor e não tem necessidade de
contemplar a forma universal do Senhor, a qual, por estar relacionada
com este mundo, é temporária.
Concordando em satisfazer Seu amigo Arjuna, o Senhor então revelou
Sua forma universal que era composta de centenas e milhares de formas
divinas variadas, sendo que, ao mesmo tempo, o Senhor dotou Arjuna com
uma visão divina para contemplá-la. Vendo esta forma do
Senhor, a qual era maravilhosa e sempre se expandia, Arjuna ficou assustado
e, espantado, começou a orar ao Senhor.
Pérola
59. ARJUNA DESCREVE SUA VISÃO (versos 15 a 31)
15.
Arjuna disse: Meu querido Senhor Krishna, vejo reunidos em Teu corpo todos
os semideuses e várias outras entidades vivas. Vejo Brahma sentado
na flor de lótus, e vejo o Senhor Shiva e todos os sábios
e as serpentes divinas. 16. Ó Senhor do Universo, ó forma
universal, vejo em Teu corpo muitos e muitos braços, ventres, bocas
e olhos, expandidos por toda a parte, sem limite. Em Ti, não vejo
começo, meio nem fim. 17. É difícil ver Tua forma
por causa de Tua refulgência deslumbrante e onidirecional como o
fogo ardente ou o imensurável resplendor do sol. Entretanto, com
toda aparte vejo esta forma reluzente, adornada com várias coroas,
maças e discos. 18. És o objetivo primordial supremo, o
lugar definitivo que serve de repouso para todo o Universo. És
inesgotável e o mais antigo. És o mantenedor da religião
eterna, a Personalidade de Deus. Esta é a minha opinião.
19. Não tens origem, meio nem fim. Tua glória é ilimitada.
Tens inúmeros braços, e o Sol e a Lua são Teus olhos.
Vejo o fogo ardente saindo de Tua boca, e queimas todo este Universo com
o Teu próprio resplendor. 20. Embora sejas um, Te expandes por
todo o céu, planetas e espaço intermediário. Ó
grande pessoa, vendo esta maravilhosa e terrível forma, todos os
sistemas planetários ficam perturbados. 21. Todas as hostes de
semideuses estão se rendendo a Ti e entrando em Ti. Alguns deles,
muito atemorizados, estão de mãos postas, oferecendo orações.
Hostes de grandes sábios e seres perfeitos, bradando “Que
haja paz”, estão orando a Ti, cantando os hinos védicos.
22. Todas as várias manifestações do Senhor Shiva,
os Adityas, os Vasus, os Sadhyas, os Visvadevas, os dois Asvinis, os Maruts,
os antepassados, os Gandharvas, os Yakshas, os Asuras e os semideuses
perfeitos estão Te contemplando com admiração. 23.
Ó pessoas de braços poderosos, todos os planetas e seus
semideuses estão perturbados ao verem Tua grande forma, com Teus
vários rostos, olhos, braços, coxas, pernas, ventres e Teus
vários dentes terríveis; e assim como eles estão
perturbados, eu também estou. 24. Ó Vishnu onipenetrante,
ao Te ver com Tuas muitas cores resplandecentes tocando o céu,
Tuas bocas escancaradas e Teus grandes olhos reluzentes, minha mente fica
perturbada pelo medo. Já não consigo manter minha firmeza
ou equilíbrio mental. 25. Ó senhor dos senhores, ó
refúgio dos mundos, por favor, conceda-me Tua graça. Não
consigo manter o equilíbrio, vendo esses Teus rostos resplandecentes,
parecidos com a morte, e esses Teus dentes medonhos. Em todas as direções
sinto-me confuso. 26-27. Todos os filhos de Dhritarastra, juntamente com
os reis que se aliaram a eles, bem como Bhisma, Drona e Karna –
e nossos principais soldados também – estão precipitando-se
em direção a Tuas bocas amedrontadoras. E vejo algumas pessoas
presas com as cabeças esmagadas entre Teus dentes. 28. Assim como
as muitas ondas dos rios desembocam no oceano, do mesmo modo, todos esses
grandes guerreiros entram incandescentes em Tuas bocas. 29. Vejo todas
as pessoas disparando precipitadamente em direção às
Tuas bocas, como mariposas que são destruídas quando se
lançam no fogo ardente. 30. Ó Vishnu, vejo-Te, com Tuas
bocas flamejantes, devorando todas as pessoas de todos os lados. Cobrindo
todo o Universo com Tua refulgência, Tu Te manifesta com raios terríveis
e abrasadores. 31. Ó Senhor dos senhores, cuja forma é tão
aterradora, por favor, diga-me quem és. Ofereço-Te minhas
reverências; por favor, sê benevolente comigo. És o
Senhor primordial. Quero conhecer-Te, pois não sei qual é
a Tua missão.
Podemos observar
que, depois de ver a forma universal do Senhor, Arjuna fica tomado de
espanto e admiração e, repetidamente, glorifica a grandeza
maravilhosa do Senhor. Neste forma universal, Arjuna teve a oportunidade
de contemplar tudo o que poderia ser visto. Ele pôde ver o Senhor
Brahma sentado na flor de lótus, o Senhor Shiva e todos os outros
semideuses oferecendo orações e recitando hinos védicos.
A forma universal se expandia sem limites, não existindo nem começo
nem fim para ela. Ela manifestava milhares de rostos, braços, pernas,
etc., e a visão era tão assustadora que Arjuna acabou perdendo
seu equilíbrio mental e, tomado de espanto e medo, ofereceu suas
respeitosas reverências ao Senhor Krishna. Além disso, depois
de ver diferentes guerreiros precipitando-se dentro das bocas flamejantes
da forma universal, Arjuna pediu para o Senhor ser bondoso para com ele
e revelar a Sua missão.
Pérola
60. O PLANO DIVINO DO SENHOR (versos 32 a 34)
32.
O Bem-aventurado Senhor disse: Eu sou o tempo, o grande destruidor dos
mundos, e vim aqui para destruir todas as pessoas. Excetuando vós
(os Pandavas), aqui, todos os soldados de ambos os lados serão
mortos. 33. Portanto, levanta-te. Prepara-te para lutar e conquistar a
glória. Vence teus inimigos e desfruta de um reino próspero.
Por Meu arranjo, eles já estão mortos, e tu, ó Savyasacin,
és apenas um instrumento na luta. 34. Drona, Bhisma, Jayadratha,
Karna e outros grandes guerreiros já foram destruídos por
Mim. Portanto, mata-os e não fiques perturbado. Simplesmente luta,
e derrotarás teus inimigos na batalha.
Como já
discutimos algumas vezes, Arjuna não estava inclinado a participar
da batalha. Ela pensava que, se desistisse da batalha, as mortes de muitos
soldados poderiam ser evitadas. No entanto, vendo todos os guerreiros
de ambos os exércitos sendo lançados na boca devoradora
da forma universal, Arjuna ficou apavorado. Diante do medo da terrível
visão da forma universal exibida pelo seu amigo, o Senhor Krishna,
Arjuna desejou conhecer mais detalhes sobre a causa da vinda do Senhor
a este mundo. Ele quis saber especificamente qual era a missão
do Senhor Krishna e o que ele realmente desejava. Aqui, portanto, o Senhor
mostrou para seu amigo Arjuna que, sob a poderosa forma do tempo, Ele
é o destruidor implacável e, assim, deixou claro que mesmo
que Arjuna não quisesse participar da batalha, a destruição
de todos o soldados fazia parte do plano do Senhor.
Pérola
61. ESPANTO E ÊXTASE DE ARJUNA (versos 35 a 46)
35.
Sañjaya disse a Dhritarastra: Ó rei, depois de ouvir estas
palavras faladas pela Suprema Personalidade de Deus, Arjuna trêmulo
e de mãos postas, ofereceu repetidas reverências. Com voz
balbuciante, ele estava amedrontado quando dirigiu ao Senhor Krishna as
seguintes palavras. 36. Arjuna disse: Ó Senhor dos sentidos, o
mundo se regozija ao ouvir Teu nome, e assim todos se apegam a Ti. Embora
os seres perfeitos Te ofereçam suas respeitosas homenagens, os
demônios têm medo, e fogem de um lado para o outro. Tudo isto
se faz de forma justa. 37. Ó pessoa grandiosa, maior até
mesmo que Brahma, és o criador original. Por que então deveriam
eles furtar-se a oferecer suas respeitosas reverências a Ti? Ó
ilimitado, Deus dos deuses, refúgio do Universo! És a fonte
invencível, a causa de todas as causas, transcendental a esta manifestação
material. 38. És a Personalidade de Deus original, o mais antigo,
o santuário definitivo deste mundo cósmico manifestado.
És o conhecedor de tudo e és tudo o que é cognoscível.
És o refúgio supremo, situado acima dos modos materiais.
Ó forma ilimitada! Penetras toda esta manifestação
cósmica! 39. És o ar e és o controlador supremo!
És o fogo, a água e a Lua! És Brahma, a primeira
criatura viva e és o bisavô. Portanto, faço questão
de oferecer-Te mil vezes minhas respeitosas reverências, e volto
a oferecê-las vezes e mais vezes. 40. Ofereço-Te reverências
de frente, de trás e de todos os lados! Ó poder incomensurável,
és o Senhor cujo poder não conhece limites! És onipenetrante
e, portanto, és tudo! 41-42. Colocando-Te na posição
de amigo, sem sequer conhecer Tuas glórias, dirigi-me a Ti com
as seguintes palavras imprudentes: “Ó Krishna”, “Ó
Yadava”, “Ó meu amigo”. Por favor, perdoa tudo
o que eu possa ter feito por loucura ou por amor. Quantas vezes Te desonrei,
gracejando enquanto nos descontraíamos, deitávamos na mesma
cama, sentávamos ou comíamos juntos, às vezes a sós
e outras vezes diante de muitos amigos. Ó infalível, por
favor, perdoa todas essas minhas ofensas! 43. És o pai desta manifestação
cósmica completa, do móvel e do inerte. És o seu
líder adorável, o mestre espiritual supremo. Ninguém
é igual a Ti, e tampouco pode alguém ser uno contigo. Como
então poderia haver alguém dentro os três mundos maior
do que Tu, ó Senhor de poder imensurável? 44. És
o Senhor Supremo, que deve ser adorado por todos os seres vivos. Então,
eu me prostro para Te oferecer minhas respeitosas reverências e
pedir Tua misericórdia. Assim como o pai tolera a insolência
de seu filho, ou um amigo tolera a impertinência do amigo, ou uma
esposa tolera a familiaridade de seu parceiro, por favor, tolera os erros
que acaso eu tenha cometido contra Ti. 45. Após ver esta forma
universal, que jamais havia visto, sinto-me satisfeito, mas ao mesmo tempo
minha mente está perturbada pelo medo. Por isso, por favor, concede-me
Tua graça e torna a revelar Tua forma como a Suprema Personalidade
de Deus, ó Senhor dos senhores, ó morada do Universo. 46.
Ó forma universal, ó Senhor de mil braços, desejo
ver-Te em Tua forma de quatro braços, com elmo na cabeça
e portando maça, disco, búzio e flor de lótus em
Tuas mãos. Almejo ver essa Tua forma.
Depois de
ouvir diretamente do Senhor sobre Sua missão transcendental, Arjuna
ficou completamente iluminado e passou a glorificar o Senhor Krishna com
orações extáticas. Ele pôde compreender perfeitamente
bem que o Senhor Krishna era muito mais do que um simples amigo. Na verdade,
ele pôde reconhecer que o Senhor Krishna é a Suprema Personalidade
de Deus, a causa de todas as causas e de tudo que existe. Ele é
a Alma Suprema, pois reside no coração de todas as entidade
vivas e é o controlador supremo, controlador inclusive dos semideuses
poderosos como Shiva e Brahma. Ele é o refúgio supremo e
ninguém é igual ou superior a Ele. Arjuna pôde entender
que o Senhor Krishna está além de toda esta manifestação
cósmica e que, na verdade, Ele é a própria causa
deste mundo e tudo repousa unicamente nEle. Ele é onisciente e
é o conhecedor de tudo: passado, presente e futuro. Ele é
o mais velho, pois é o pai da primeira criatura, Brahmaji. Ele
é o mestre espiritual supremo, pois foi unicamente Ele que, no
começo da criação, transmitiu o conhecimento védico
no coração do Senhor Brahma. Portanto, Sua grandeza é
imensurável. Assim, Arjuna sentiu um profundo êxtase amoroso
por seu amigo Krishna e, oferecendo todo tipo de respeito e reverência
com bastante humildade, ele também pediu perdão ao Senhor
Krishna pela negligência nos relacionamentos do passado. Agora que
o Senhor estava manifestando Sua forma universal todo-poderosa, Arjuna
pôde entende melhor a grandeza de seu amigo e sentiu-se um ofensor
quando o tratava de maneira familiar, pois eles se relacionavam como amigos.
Ao mesmo tempo, ele ficou feliz em ver que seu amigo era a poderosa Pessoa
Suprema. Embora Arjuna estivesse contente, sua mente ainda estava bastante
perturbada pelo medo e, assim, ele pede que o Senhor novamente manifeste
Sua forma encantadora, semelhante à humana.
Pérola
62. ELIMINANDO A PERTURBAÇÃO DE ARJUNA (versos
47 a 51)
47.
A Suprema Personalidade de Deus disse; Meu querido Arjuna, com prazer
te mostrei, através de Minha potência interna, esta forma
universal suprema. Dentro do mundo material, antes de ti, ninguém
jamais viu esta forma primordial, ilimitada e plena de refulgência
deslumbrante. 48. Ó melhor dos guerreiros Kurus, antes de ti, ninguém
jamais vira esta Minha forma universal, pois nem através do estudo
dos Vedas, da execução de sacrifícios, da caridade,
de atividades piedosas ou de rigorosas penitências, posso Eu ser
visto sob esta forma no mundo material. 49. Ficaste perturbado e confuso
ao ver este Meu aspecto terrífico. Agora basta. Meu devoto, volta
a livrar-te de toda a perturbação. Com a mente tranqüila
podes então ver forma que desejas. 50. Sañjaya disse a Dhritarastra:
A Suprema Personalidade de Deus, Krishna, tendo falado essas palavras
a Arjuna, manifestou Sua verdadeira forma de quatro braços e por
fim mostrou Sua forma de dois braços, encorajando assim o amedrontado
Arjuna. 51. Ao ver Krishna em Sua forma original, Arjuna, então,
disse; Ó Janardana, gora que vejo esta forma aparentemente humana
e que possui tamanha beleza, minha mente está tranqüila e
reassumi minha natureza original.
Esta parte
do Bhagavad-gita mostra que as pessoas que consideram o Senhor Krishna
como uma pessoa comum cometem a maior injustiça pois, como uma
pessoa comum poderia revelar uma forma universal tão maravilhosa
e depois uma forma de quatro braços para, finalmente, reassumir
sua forma original?
Para satisfazer o desejo de Seu amigo Arjuna, pela primeira vez Krishna
mostrou a Sua forma universal plena de refulgência e opulência.
Embora o devoto não esteja interessado em ver esta forma universal,
Arjuna quis que o Senhor a revelasse para que no futuro outras pessoas
também pudessem se convencer da grandeza do Senhor e também
se alguém se apresentasse como uma encarnação, as
pessoas pudessem pedir para ver sua forma universal. Como vimos anteriormente,
Arjuna fora dotado de visão divina, mas, na verdade, pelo simples
fato de ser um devoto puro do Senhor, Arjuna possuía uma natureza
divina e já tinha uma visão divina. Entretanto, os não-devotos
invejam Krishna e, como são ateus, nunca podem ter uma visão
divina. Muitas vezes, tais ateus também estudam a literatura védica
por estarem interessados no aspecto impessoal do Supremo. Além
disso, eles também executam sacrifícios, dão caridades
e aceitam inconveniências físicas para algum propósito,
mas, ainda assim, se eles não se tornarem devotos do Senhor, nunca
poderão ver ou sequer entender esta forma universal do Senhor.
Na verdade, o devoto prefere relacionar-se com a forma original do Senhor,
pois esta relação possibilita a reciprocidade de sentimentos
amorosos. Por isso, o Senhor Krishna concordou em manifestar novamente
Sua forma original de dois braços, acalmando a mente de Seu confuso
amigo e devoto Arjuna.
Pérola
63. OS MISTÉRIOS DA COMPREENSÃO ESPIRITUAL (versos
52 a 55)
52.
A Suprema Personalidade de Deus disse: Meu querido Arjuna, esta Minha
forma que agora vês é muito difícil de contemplar.
Até mesmo os semideuses sempre buscam a oportunidade de ver esta
forma, que é tão querida. 53. A forma que vês com
teus olhos transcendentais não pode ser compreendida através
do simples estudo dos Vedas, nem por submeter-se a sérias penitências,
nem por fazer caridade, nem por prestar adoração. Não
é por estes meios que se pode ver-Me como sou. 54. Meu querido
Arjuna, só pelo serviço devocional indiviso é possível
compreender-Me como sou, tal qual Me apresento diante de ti, e assim poder
Me ver diretamente. Só desse modo podes ingressar nos mistérios
da compreensão acerca de Mim. 55. Meu querido Arjuna, aquele que
se ocupa em Meu serviço devocional puro, livre das contaminações
das atividades fruitivas e da especulação mental, que trabalha
para Mim e faz de Mim a meta suprema de sua vida, sendo amigo de todos
os seres vivos – com certeza virá a Mim.
O devoto
puro que se ocupa em serviço devocional pleno em consciência
de Krishna pode desenvolver olhos espirituais, quando passa a ver o Senhor
o tempo todo. Na verdade, esta visão espiritual é uma revelação
divina e é o resultado da atitude pura de serviço que tal
devoto desenvolveu. Esta revelação espiritual é tão
rara que ela não é possível nem sequer para os semideuses
que não sejam devotos puros. Embora tais semideuses estejam sempre
esperançosos de contemplar a forma maravilhosa de Krishna com dois
braços, eles têm bastante dificuldade em compreendê-la,
pois, na sua maioria, não são almas totalmente rendidas
ao Senhor. No Srimad-Bhagavatam se evidencia que, quando o Senhor estava
prestes a aparecer neste mundo e ainda estava no ventre de Devaki, os
semideuses vinham oferecer suas reverências ao Senhor, embora, naquela
ocasião, Ele não lhes fosse visível. O materialista
tolo, no entanto, insiste em considerá-lO como uma pessoa comum
e mesmo que mostre algum respeito ao Senhor Krishna, muitas vezes não
o faz diretamente a Ele, mas a “algo” impessoal dentro dEle.
No Quarto Capítulo, aprendemos que, pelo simples fato de compreender
o aparecimento e as atividades do Senhor, uma pessoa consegue libertar-se
deste mundo de nascimentos e mortes. Isto é um fato por que o nascimento
do Senhor e a manifestação de Sua forma transcendental são
bastante misteriosos. Primeiramente, Ele aparece diante de Seus pais na
forma de Vishnu de quatro braços e então transforma-Se numa
manifestação de dois braços semelhante à humana
e isto certamente desconcerta as pessoas ateístas e desprovidas
de serviço devocional. De qualquer modo, a forma universal é
completamente diferente da forma do Senhor de dois ou quatro braços.
A forma universal mostrada a Arjuna é temporária, ao passo
que as formas de dois e quatro braços são eternas e transcendentais.
A conclusão deste capítulo, portanto, é que devemos
procurar entender a forma original transcendental do Senhor Krishna e
desenvolver nossa relação com ela, o que só é
possível através do serviço devocional. A forma universal
é uma manifestação divina menos importante por que
é temporária, e mesmo a forma quatro braços que é
transcendental também foi manifestada por Krishna. Logo, Krishna
é a origem de todas as manifestações. Há tantas
encarnações e manifestações de Krishna quanto
são as ondas do oceano, mas o devoto puro se interessa completamente
pela forma original de Krishna, que é conhecido como Govinda. Aqueles,
portanto, que se apegam a Krishna e prestam-Lhe serviço com amor
e devoção podem compreendê-lO completamente e vê-lO
sempre dentro do coração.
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