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CAPÍTULO
X: A Opulência do Absoluto
Pérola 53. O CONHECIMENTO SUPERIOR (versos 1 a
3)
1.
A Suprema Personalidade de Deus disse: Volta a ouvir, ó Arjuna
de braços poderosos. Porque és Meu querido amigo, para o
teu benefício continuarei dirigindo a palavra a ti, transmitindo
um conhecimento superior a tudo o que já expliquei. 2. Nem as hostes
de semideuses nem os grandes sábios conhecem Minha origem ou opulências,
pois, em todos os aspectos, Eu sou a fonte dos semideuses e dos sábios.
3. Quem Me conhece como o não-nascido, como aquele que não
tem começo, como o Supremo Senhor de todos os mundos – só
este, que, entre os homens, não se deixa iludir, está livre
de todos os pecados.
Tornar-se
completamente bem-sucedido em percepção espiritual significa
compreender Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, como aquele que
é imutável e está completamente livre da influência
de Sua energia material inferior. Ele é o supremo proprietário
de todos os sistemas planetários do Universo. Na verdade, Ele existia
mesmo antes da criação e continuará existindo depois
da aniquilação, pois Sua personalidade e Sua morada são
eternas. O Senhor Krishna é a Pessoa Suprema, a causa de todos
os semideuses e sábios e a origem de tudo o que existe. Portanto,
devemos ter plena convicção de que, quanto mais ouvimos
sobre Ele e Suas qualidades transcendentais, mais iremos nos fixar no
serviço devocional. Por isso, o Senhor irá narrar a Seu
amigo Arjuna as manifestações de Suas várias opulências
para fortalecer ainda mais a sua convicção. Tais narrações
do Senhor são extremamente benéficas para aqueles que querem
se fixar no serviço devocional e devemos nos dedicar a ouvi-las
na companhia dos devotos puros do Senhor, pois nunca poderemos compreender
as opulências e glórias do Senhor com nossos sentidos de
percepção materialmente influenciados. Mesmo grandiosos
sábios que tentaram compreender a Verdade Absoluta através
de meros esforços mentais e intelectuais fracassaram em seu intento.
Na verdade, o limite de alcance de nossos sentidos e inteligência
materiais é o conceito impessoal de Deus. Mas, isto não
é suficiente para que possamos compreender a Verdade Absoluta em
Seu aspecto mais elevado como a Suprema Personalidade de Deus. Só
quem está na posição transcendental, prestando serviço
devocional amoroso ao Senhor, poderá compreendê-lO por completo.
O Senhor, por Sua misericórdia imotivada, desce a este mundo e
executa atividades completamente incomuns. Além disso, Ele pessoalmente
revela Suas opulências inconcebíveis, transmitindo o conhecimento
transcendental do Bhagavad-gita, e devemos tornar nossa existência
auspiciosa por aceitar estes ensinamentos espirituais sob a guia de um
mestre espiritual, um devoto puro do Senhor.
Pérola
54. A OPULÊNCIA DO ABSOLUTO (versos 4 a 11)
4-5.
Inteligência, conhecimento, estar livre da dúvida e da ilusão,
clemência, veracidade, controle dos sentidos, controle da mente,
felicidade e aflição, nascimento, morte, medo, destemor,
não-violência, equanimidade, satisfação, austeridade,
caridade, fama e infâmia – todas essas várias qualidades
dos seres vivos são criadas apenas por Mim. 6. Os sete grandes
sábios e, mais antigos do que eles, os quatro outros grandes sábios
e os Manus (progenitores da humanidade) vêm de Mim, nascidos de
Minha mente, e todos os seres vivos que povoam os vários planetas
descendem deles. 7. Quem, de fato, está convencido desta Minha
opulência e poder místico ocupa-se em serviço devocional
imaculado; quanto a isto, não há dúvida. 8. Eu sou
a fonte de todos os mundos materiais e espirituais. Tudo emana de Mim.
Os sábios que conhecem isto perfeitamente ocupam-se em Meu serviço
devocional e adoram-Me de todo o coração. 9. Os pensamentos
de Meus devotos puros residem em Mim, suas vidas são plenamente
devotadas a Meu serviço, e eles obtêm grande satisfação
e bem-aventurança sempre se iluminando uns aos outros e conversando
sobre Mim. 10. Àqueles que estão constantemente devotados
a Me servir com amor, Eu dou a compreensão pela qual eles podem
vir a Mim. 11. Para lhes mostrar misericórdia especial, Eu, residindo
em seus corações, destruo com a luz brilhante do conhecimento
a escuridão nascida da ignorância.
Quando conhecemos
as opulências do Senhor, sentimos uma inclinação natural
para Lhe prestar serviço devocional. O Senhor é a suprema
causa de todas as causas e tudo, quer seja material ou espiritual, depende
dEle e os devotos sentem grande prazer em se reunir e se ocupar em glorificá-lO,
descrevendo Seus nomes, Suas formas, qualidades e passatempos. Tais conversas
transcendentais sobre o Senhor darão resistência e força
à plantinha devocional que se encontra no coração
do devoto. Desta forma, a fé, a atração e a devoção
se tornam cada vez mais fortes à medida que os devotos se absorvem
em sravanam-kirtanam, ou seja, ouvir e cantar sobre o Senhor. Com isso,
o devoto desenvolve cada vez mais sua inteligência e cada vez mais
compreende a diferença entre espírito e matéria.
Munido desse conhecimento, o devoto vai se livrando de toda espécie
de dúvida e ilusão. Como parte do treinamento espiritual,
ele desenvolve tolerância às ofensas alheias e, ao mesmo
tempo, para o benefício das pessoas em geral, se torna veraz, apresentando
as coisas como elas são, sem deturpação. Um devoto
vive neste mundo sem apego ou aversão a ele, enquanto permanece
satisfeito com aquilo que é obtido pela misericórdia do
Senhor. Quando são recomendadas pelas escrituras, ele aceita as
inconveniências corpóreas em prol do avanço espiritual
e é caridoso com os brahmanas e pessoas que se dedicam a propagar
a consciência de Krishna. Controlando os sentidos por utilizá-los
apenas para cultivar a consciência de Krishna, o devoto consegue
também afastar da mente os pensamentos prejudiciais ao seu avanço
espiritual. Ele sabe que qualquer qualidade sua, foi obtida simplesmente
pela graça do Senhor. Portanto, ocupando-se no serviço devocional,
ele vai perdendo completamente qualquer temor e aprende a ficar feliz,
aceitando as coisas favoráveis para o serviço devocional
e rejeitando as coisas desfavoráveis. Tal devoto nunca traz sofrimentos
aos outros. Pelo contrário, ele sempre está propagando o
conhecimento espiritual e, com isso, ajuda todos a atingirem a verdadeira
felicidade.
Pérola
55. DEUS DOS DEUSES (versos 12 a 18)
12-13.
Arjuna disse: És a Suprema Personalidade de Deus, a morada última,
o mais puro, a Verdade Absoluta. És a pessoa original, eterna e
transcendental, o não-nascido, o maior. Todos os grandes sábios,
tais como Narada, Asita, Devala e Vyasa, confirmam esta verdade referente
a Ti, e agora Tu mesmo a declaras para mim. 14. Ó Krishna, aceito
totalmente como verdade tudo o que me disseste. Nem os semideuses nem
os demônios, ó Senhor, podem compreender Tua personalidade.
15. Na verdade, só Tu Te conheces através de Tua potência
interna, ó Pessoa Suprema, origem de tudo, Senhor de todos os seres,
Deus dos deuses, Senhor do Universo! 16. Por favor, descreve-me Tuas opulências
divinas com as quais penetras todos esses mundos. 17. Ó Krishna,
ó místico supremo, como devo pensar constantemente em Ti,
e como devo conhecer-Te? Quais as Tuas várias formas que devem
ser lembradas, ó Suprema Personalidade de Deus? 18. Ó Janardana,
por favor, volta a descrever em detalhes o poder místico de Tuas
opulências. Nunca me canso de ouvir sobre Ti, pois, quanto mais
ouço, mais quero saborear o néctar de Tuas palavras.
Aqui podemos
ver como Arjuna, depois de ouvir diretamente o Senhor sobre Suas opulências,
ficou completamente livre de todas as dúvidas. Ele aceitou o Senhor
Krishna como a Verdade Absoluta plena de opulências. Ao mesmo tempo,
Arjuna deixa claro que não se trata da opinião de um simples
amigo querendo glorificar o outro. Ele aceita as glórias do Senhor
Krishna, assim como grandes sábios já o fizeram no passado.
Em outras palavras, Arjuna possuía conhecimento védico suficiente.
Ele não era um sentimentalista tolo e muito menos um especulador
mental. Sua qualificação especial foi aceitar tudo o que
o Senhor Krishna disse, sem interpretação pessoal, pois
não há outra maneira de se compreender o Bhagavad-gita.
Como discutimos no Capítulo Quatro, Arjuna foi escolhido para receber
o conhecimento do Bhagavad-gita devido às suas qualificações
pessoais. Ele era um amigo pessoal de Krishna e um devoto puro, livre
de inveja, e isso o qualificava para compreender a essência dos
ensinamentos do Senhor. Devemos, portanto, seguir os passos de Arjuna
se quisermos compreender os ensinamentos de Krishna como eles são.
Arjuna estava satisfeito com suas percepções espirituais,
mas, ainda assim, ele pede ao Senhor para descrever em maiores detalhes
Sua opulência. Na verdade, o devoto puro jamais se sente saciado,
mesmo que ouça continuamente sobre as qualidades transcendentais
do Senhor. Os tópicos sobre o Senhor são exatamente como
um néctar e quanto mais ouvimos tais narrações, mais
desejamos saboreá-las.
Pérola
56. AS MANIFESTAÇÕES ESPLENDOROSAS DE DEUS (versos
19 a 42)
19.
A Suprema Personalidade de Deus disse: Sim, Eu te falarei sobre Minhas
manifestações esplendorosas, mas só sobre aquelas
que são preeminentes, ó Arjuna, pois Minha opulência
é ilimitada. 20. Eu sou a Superalma, ó Arjuna, situado nos
corações de todas as entidades vivas. Eu sou o princípio,
o meio e o fim de todos os seres. 21. Entre os Adityas, sou Vishnu; entre
as luzes, sou o Sol radiante; entre os Maruts, sou Marici; e entre as
estrelas, sou a Lua. 22. Dos Vedas, sou o Sama Veda; dos semideuses, sou
Indra, o rei dos céus; dos sentidos, sou a mente; e nos seres vivos,
sou a força viva (consciência). 23. De todos os Rudras, sou
o Senhor Shiva; dos Yakshas e Rakshasas, sou o senhor da riqueza (Kuvera);
dos Vasus, sou o fogo (Agni); e das montanhas, sou Meru. 24. Dos sacerdotes,
ó Arjuna, fica sabendo que sou o principal, Brihaspati. Dos generais,
sou Kartikeya, e dos corpos de água, sou o oceano. 25. Dos grandes
sábios, sou Bhrigu; das vibrações, sou o om transcendental.
Dos sacrifícios, sou o cantar dos santos nomes (japa), e dos objetos
inertes, sou os Himalaias. 26. De todas as árvores, sou a figueira-da-bengala;
e dos sábios entre os semideuses, sou Narada. Dos Gandharvas, sou
Citraratha, e entre os seres perfeitos, sou o sábio Kapila. 27.
Dos cavalos, fica sabendo que sou Ucchaishrava, produzido durante a batedura
do oceano quando se queria obter néctar. Dos elefantes imponentes,
sou Airavata; e entre os homens, sou o monarca. 28. Das armas sou o raio;
entre as vacas sou a surabhi. Das causas que fomentam a procriação,
sou Kandarpa, o deus do amor, e das serpentes, sou Vasuki. 29. Das Nagas
de muitos capelos, sou Ananta, e entre os seres aquáticos, sou
o semideus Varuna. Dos ancestrais que partiram sou Aryama, e entre aqueles
que impõem a lei, sou Yama, o senhor da morte. 30. Entre os demônios
Daityas, sou o devotado Prahlada; entre os subjugadores, sou o tempo;
entre os animais selvagens, sou o leão; e entre as aves, sou Garuda.
31. Dos purificadores, sou o vento; dos manejadores de armas, sou Rama;
dos peixes, sou o tubarão; e dos rios que correm, sou o Ganges.
32. De todas as criações, sou o começo, o fim e também
o meio, ó Arjuna. De todas as ciências, sou a ciência
espiritual do eu, e entre os lógicos, sou a verdade conclusiva.
33. Das letras, sou a letra A, e entre as palavras compostas, sou o composto
dual. Sou também o tempo inexaurível, e dos criadores, sou
Brahma. 34. Eu sou a morte que tudo devora e sou o princípio encarregado
de gerar tudo o que vai existir. Entre as mulheres, sou a fama, a fortuna,
a linguagem afável, a memória, a inteligência, a firmeza
e a paciência. 35. Dos hinos do Sama Veda, sou o Brihat-sama, e
da poesia, sou o Gayatri. Dos meses, sou margasirsha (novembro-dezembro),
e das estações, sou a primavera florida. 36. Sou também
a jogatina em que se fazem trapaças, e do esplêndido, sou
o esplendor. Eu sou a vitória, a aventura e a força dos
fortes. 37. Dos descendentes de Vrishni, sou Vasudeva, e dos Pandavas,
sou Arjuna. Dos sábios, sou Vyasa, e entre os grandes pensadores,
sou Usana. 38. Dentre todos os meios que reprimem a ilegalidade, sou o
castigo, e daqueles processos que visam à vitória, sou a
moralidade. Das coisas secretas, sou o silêncio, e dos sábios,
sou a sabedoria. 39. Ademais, ó Arjuna, sou a semente geradora
de todas as existências. Não existe ser algum – móvel
ou inerte – que possa existir sem Mim. 40. Ó poderoso vencedor
dos inimigos, Minhas manifestações divinas nunca chegam
ao fim. O que te disse é apenas um mero indício de Minhas
opulências infinitas. 41. Fica sabendo que todas as criações
opulentas, belas e gloriosas emanam de uma mera centelha do Meu esplendor.
42. Mas qual a necessidade, Arjuna, de todo esse conhecimento minucioso?
Com um simples fragmento de Mim mesmo, Eu penetro e sustento todo este
Universo.
O corpo material
da entidade viva só pode existir devido à presença
da alma, uma centelha espiritual do Senhor. Do mesmo modo, a manifestação
cósmica existe unicamente porque a Alma Suprema está presente
através de Sua expansão Paramatma. Por isso, aqui o Senhor
Krishna começa a informar a Arjuna que Ele é a alma da manifestação
cósmica inteira. Tudo o que existe tem sua causa e esta causa é
Krishna, a causa original de tudo. Sem a energia dEle nada pode existir
e tudo o que existe, seja material ou espiritual, não passa de
uma pequena partícula da opulência do Senhor. Além
disso, qualquer coisa que manifeste extraordinária opulência
deve ser considerada como um fragmento da opulência de Krishna.
Portanto, Arjuna queria ouvir diretamente do Senhor como Ele está
simultaneamente presente e não-presente nesta criação.
Por esse motivo, o Senhor concorda em descrever uma minúscula parcela
de Suas opulências. Os devotos puros do Senhor, como Arjuna, querem
conhecê-lO ao máximo, mas, ao mesmo tempo, eles sabem que
não serão capazes de conhecê-lO por completo em nenhuma
fase da vida. Exatamente como uma pássaro que voa no céu
tanto quanto permite sua capacidade, os devotos compreendem as grandezas
e opulências de Krishna de acordo com suas respectivas capacidades.
Portanto, eles sentem grande prazer ao comentarem sobre as opulências
do Senhor e desejam ouvi-las e discuti-las vinte e quatro horas por dia.
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